Urbanização no Mundo

História das Cidades

Tópico adaptado de SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão. Capitalismo e urbanização. São Paulo: Contexto, 2004, p. 12-31.


No período Neolítico (4.000 a.C.) já havia se realizado a primeira condição para o surgimento das cidades (centros polarizadores de uma região), qual seja a fixação do homem à terra através do desenvolvimento da agricultura e da criação de animais, mas faltava a concretização da segunda condição, que é uma organização social mais complexa, embutida na origem da cidade a partir da divisão do trabalho.

Vista de Jericó, uma das cidades mais antigas do mundo erigida por volta de 3.500 a.C.

Isso ocorreu da seguinte maneira: em primeiro lugar, o desenvolvimento na seleção de sementes e no cultivo agrícola foi, com o correr do tempo, permitindo que o agricultor produzisse mais que o necessário para sua manutenção. Começou a haver um excedente alimentar. Isto permitiu a alguns homens livrarem-se das atividades primárias que garantiam a subsistência, passando a se dedicar a outras atividades.

A produção do excedente alimentar é, portanto, condição necessária – embora não seja a única – para que efetivamente se dê uma divisão social do trabalho, que por sua vez abre a possibilidade de se originarem cidades.

A relação de dominação criada entre aldeões e caçador-chefe político-rei, criou condições para uma relação de exploração. Aí se originou a sociedade de classes, e se concretizou a última condição necessária e indispensável à própria origem da cidade, ou seja, a cidade na sua origem não é por excelência o lugar de produção, mas o da dominação.

 A Mesopotâmia (região entre os rios Tigre e Eufrates, onde hoje é o território do Iraque – veja mapa abaixo) foi o centro da difusão do fato urbano para o Egito Antigo (Mênfis e Tebas), vale do rio Indo (Mohenjo-Daro), Mediterrâneo Oriental e interior da China (Pequim e Hang-Chu).

O Império Romano é o melhor exemplo de expansão da urbanização na Antiguidade, por conta de um poder unificado, além disso, o Império estendeu-se para a Europa Ocidental, permitindo o desenvolvimento urbano em regiões habitadas por “bárbaros”. No noroeste europeu, ao norte dos Alpes, as primeiras cidades fundadastanto no vale do Reno (hoje, Alemanha), como na Britânia (hoje, Inglaterra) e Gália (hoje, França e Bélgica) são romanas.

A partir do século V d.C., com a queda do Império Romano, houve um declínio expressivo no processo de urbanização.

Didaticamente, o início do período medieval é marcado pela queda do Império Romano, que se deu no século V (ano 476), e constituiu- se concretamente na quebra da hegemonia política romana sobre a bacia do Mediterrâneo – grande parte da Europa, norte da África e Oriente Médio. Em suma, a Idade Média caracterizou-se pela economia ruralizada, enfraquecimento comercial, supremacia da Igreja Católica, sistema de produção feudal e sociedade hierarquizada.


No século VII, a expansão islâmica interrompeu o comércio dos cristãos através do Mediterrâneo regredindo a atividade econômica das cidades e imprimindo o caráter agrícola à Europa Ocidental, permitindo a definição, de fato, do modo de produção feudal (a terra como única fonte de subsistência e de condição de riqueza). Portanto, as cidades durante o feudalismo propriamente dito, perderam o papel político que tiveram durante a Antiguidade.

As transformações, que historicamente se deram, permitindo a estruturação do modo de produção capitalista, constituem consequências contundentes do próprio processo de urbanização. A cidade nunca fora um espaço tão importante, e nem a urbanização um processo tão expressivo e extenso a nível mundial, como a partir do capitalismo.

A urbanização capitalista

O processo de urbanização moderno teve início com a Primeira Revolução Industrial acontecida na Inglaterra, em meados do século XVIII, quando na produção rural se introduziu novas técnicas e mecanização diminuindo a necessidade de mão de obra no campo.

Foto de cidade da Inglaterra no século XIX, quando as chaminés industriais dominavam o espaço. Fonte: banzaiek.info

A população urbana cresceu devido à quantidade de oportunidades que o sítio urbano (local de implantação da cidade) passou a oferecer com a modernização tanto no campo como nas cidades.

Em 1850, a Inglaterra já tinha sua população urbana maior que a população rural. Os países industrializados desenvolvidos participaram da Segunda Revolução Industrial acontecida a partir da segunda metade do século XIX e os subdesenvolvidos, ao longo do século XX.

A urbanização nos países subdesenvolvidos industrializados, também chamados de emergentes ao capital, aconteceu com maior velocidade devido à industrialização ocorrida após a Segunda Guerra Mundial que levou a população do campo a migrar para as cidades (êxodo rural) devido às condições rurais precárias e mecanização agrícola ao dispensar a mão de obra do agricultor.

A urbanização nos países subdesenvolvidos mais pobres tem duas vertentes: uma que concentra a maior parte da população economicamente ativa no setor primário apresentando baixos índices de urbanização e outra que devido às condições no campo serem bastante precárias faz com que a população migre para as cidades imprimindo uma maior velocidade na urbanização e fazendo o crescimento espacial urbano desordenado causando macrocefalia urbana e hipertrofia ou inchaço no setor terciário (grande quantidade de pessoas economicamente ativas sem qualificação jogadas no mercado, também sem carteira assinada, ou seja, sem pagar impostos ao estado).

Favela em Dhaka, Bangladesh. O inchaço no setor terciário gera subempregos, que por sua vez causam as mais precárias condições urbanas. Fonte: coolesarticles.

Já os países desenvolvidos, como possuem um crescimento vegetativo muito perto de zero ou até negativo e também devido a um maior bloqueio na imigração, as taxas de urbanização apresentam um crescimento lento.

Note que foi falado em urbanização moderna e maior velocidade nesse processo, pois a urbanização como fenômeno geográfico, já acontecia desde as primeiras cidades da Mesopotâmia (área entre os rios Tigre e Eufrates citada em tópico anterior) surgidas há aproximadamente quatro mil anos antes da era cristã.

Cidades planejadas e cidades espontâneas

Quanto à origem, as cidades podem ser espontâneas quando surgem “naturalmente” (em locais estratégicos) ou planejadas quando são construídas com uma função urbana específica.

As cidades planejadas podem apresentar um traçado radiocêntrico, em que as principais avenidas convergem para um ponto central (Belo Horizonte, Paris), ou um traçado ortogonal, onde as principais avenidas se cruzam em ângulo reto (Brasília, Washington).

Mapa de Paris com seu traçado radial. Fonte: arquivo pessoal do autor.

Função urbana

A função urbana é a característica que mais se destaca em uma cidade.

Quanto às funções as cidades classificam-se em:

  • Comerciais – Feira de Santana/BA; Campina Grande/PB
  • Industriais – Cubatão/SP; Camaçari/BA; Volta Redonda/RJ; Detroit
  • Administrativas – Brasília/DF; Washington; Otawa
  • Universitárias – Viçosa/MG; Coimbra; Oxford; Cambridge
  • Religiosas – Jerusalém; Meca; Aparecida do Norte/SP; Vaticano; Bom Jesus da Lapa/BA
  • Portuárias – Santos/SP; Vitória/ES; Paranaguá/PR
  • Turísticas – Mônaco; Porto Seguro/BA; Atenas; Ouro Preto/MG; Gramado/RS
Vista do Parthenon na Acrópole ateniense, Grécia. Atenas é uma cidade que dentro da urbanidade atende à função turística.
.

 No entanto, é muito importante observar que são várias as cidades multifuncionais onde vários das funções acima mencionadas podem ser observadas simultaneamente e é impossível se dizer que uma predomina sobre a outra. Um bom exemplo é o caso de Jerusalém, capital de Israel, pois além de ser uma sede político-administrativa é também uma cidade em que os aspectos religiosos, históricos e turísticos se destacam. Do mesmo modo, o Rio de Janeiro, no Brasil, que já foi a capital federal, continua com papel político-administrativa importante no Estado do Rio de Janeiro, e é também um pólo turístico internacional com muitos sítios históricos, além de concentrar indústrias em seu espaço.

 Conceitos nas aglomerações urbanas

  •  Conurbação – é a superposição ou encontro de duas ou mais cidades próximas e em razão de seu crescimento com a exemplo do ABCD paulista (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano e Diadema); regiões como Nova Iorque, Grande São Paulo, Grande Rio de Janeiro.
  • Metrópole – corresponde à cidade principal ou “cidade-mãe”, isto é, aquela que tem os melhores equipamentos urbanos do país (metrópole nacional) ou de uma grande região do país (metrópole regional). Nova Iorque, Tóquio, Sidnei, são Paulo e Rio de Janeiro são exemplos de metrópoles nacionais; Lion (Sudeste da França), Vancouver (litoral do Pacífico canadense), Seattle (Noroeste dos EUA) e Belém (Região Norte do Brasil) são exemplos de metrópoles regionais.
Vista aérea de Manhattan, Nova Iorque. em 1931
.
  • Região metropolitana – é o conjunto de áreas (municípios, no Brasil) contíguas e integradas socioeconomicamente a uma cidade principal (metrópole), com serviços públicos de infra-estrutura comuns. No Brasil, o geógrafo Marcelo Lopes de Souza explica que “com a Constituição de 1988, a incubência de criar regiões metropolitanas passou da União para os Estados. Essa mudança representou e representa uma oportunidade positiva, pela flexibilidade para a adoção de soluções mais adaptadas a cada realidade local e regional, e implementada de modo mais democrático; por outro lado, percebe-se que a falta de critérios técnicos compartilhados e a idéia de que “ser metrópole” representa um grande status vêm levando à criação de regiões metropolitanas onde, de fato, talvez só exista, no fundo, uma aglomeração de porte não-metropolitano…” (SOUZA, Marcelo Lopes de. ABC do desenvolvimento urbano. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2005, p. 35, 36). Devido à legislação estadual, em 2004, o Brasil contava com 22 regiões metropolitanas. Entre as principais estão a região metropolitana de Belo Horizonte, com 48 municípios (incluindo o colar metropolitano); a Grande São Paulo, com 39; Porto Alegre, com 28; e Curitiba, com 25.
  • Megalópole – se forma pela conurbação de uma ou mais metrópoles, originando uma extensa área urbanizada. Ela corresponde às mais importantes e maiores aglomerações d atualidade. A maior megalópole do mundo é a Boswash (Boston, Nova Iorque, Filadélfia, Baltimore e Washington). Outros exemplos são Chipitts (Chicago, Cleveland e Pittsburgh), Renana (de Amsterdã, na Holanda, a Stuttgard, na Alemanha), Tóquio-Nagóia-Osaka-Kobe, no Japão e Londres-Birmingham-Manchester, na Inglaterra. No Brasil, uma megalópole encontra-se em formação ao longo do eixo metropolitano São Paulo-Rio de Janeiro, ocupando grande parte do Vale do Rio Paraíba (veja mapa que segue).
  • Rede urbana – as relações que as cidades estabelecem entre si geram uma divisão territorial de funções articuladas que constitui uma rede urbana.  Localização e a espacialização funcional estabelecem uma hierarquia entre cidades grandes médias e pequenas. A cidade grande (com maior categoria dimensional, mais funções urbanas e setor terciário mais diversificado) exerce influência sobre as cidades menores e o meio rural.
Crescimento da mancha urbana de São Paulo, metrópole global conforme o conceito do IBGE. Fonte: Macalester College.

 No Brasil, o IBGE identifica a seguinte hierarquia urbana:

  1. Metrópole global – cidade principal, com influência mundial, pólos de globalização e desenvolvimento tecnológico;
  2. Metrópole nacional – cidade principal e mais bem equipada, que influencia todo o território;
  3. Metrópole regional – cidade importante e com mais equipamentos de uma região, que influencia certa porção ou região do país;
  4. Centro regional – cidade importante dentro de uma região administrativa.

Referências

COELHO, Marcos Amorim; TERRA, Lygia. Geografia geral: o espaço socioeconômico. São Paulo: Moderna, 2005, p. 418-422.

SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão. Capitalismo e urbanização. São Paulo: Contexto, 2004, p. 12-31.

SOUZA, Marcelo Lopes de. ABC do desenvolvimento urbano. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2005, p. 35, 36

Deixe uma resposta