Escritos sobre a Terra Média (mais a oeste da de J. R. R. Tolkien e além do oceano)

Por Marcos Bau no solstício de inverno, 2017




Era uma vez, uma Terra que passou a ser intitulada de Média devido aos inusitados acontecimentos. Média devido ao relevo planáltico de altitudes modestas; média devido a uma classe social de mesmo nome que até poderia mudar algo, mas estava mesmo preocupada com seus direitos no sentido da manutenção dos privilégios; e média mesmo porque é sua sina ser classificada como eterna região emergente do subdesenvolvimento mais extremo, patamar que encontra-se muito distante do desenvolvimento, e que possui inúmeros focos desse mesmo subdesenvolvimento, onde a classe que detém os mais altos privilégios e poderia dar o passo para consolidar tal desenvolvimento, não abre mão de nenhuma das suas inúmeras benesses pessoais, mesmo que seja em prol do crescimento coletivo da terra enquanto sociedade.

Portanto, esse é um escrito de ficção e qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência. Os escritos sobre esse território são, na verdade, devaneios em absurdos presentes e vindos de um passado que também já se mostrou surreal. Contudo, qualquer absurdo que você imaginar como impossível, na Terra Média já teve precedente.

A Terra Média (relevo de muitas depressões em meio à planaltos predominantes) detém um Congresso bem mediano de inteligência, que oficialmente toca o presidencialismo, mas praticamente vive um parlamentarismo branco, clientelista e fisiologista, com alguns dinossauros políticos altamente profissionais (principalmente na tentativa de tornar lícito o que é obviamente ilícito). Ser político lá, além de profissão privilegiada de tudo e de foro é atividade que, ao invés de servir como servidor público que é, deve ser servida pelo povo através dos impostos. Para os privilegiados de foro e de capital, na Terra Média não importa o fato, o que importa é o como se dará a judicialização do fato, para que a leitura ao grande público se torne confusa, multifacetada e possível à impunidade, ou aquela peça que dá o sentido de liberdade aos corruptos, inclusive na chancela de se cometer mais crimes; forma-se então uma espécie de jurisdição do combate ao crime através de outros e mais crimes, pela via de uma linguagem jurídica extremamente rebuscada e totalmente fora do alcance do dito cidadão comum, o trabalhador, que sempre pagou, paga e pagará essa e todas as contas (85% das famílias desse país fictício possui renda de até 5 salários mínimos – dessas, 63% possui até dois salários mínimos). Ah! Quando a justiça acerta, na direção do combate à corrupção, a política vigente se incumbe de acusar abuso de autoridade, pois a seletividade é sempre palavra de ordem.

Nessa Terra Média, imagine um exemplo hipotético com doses cavalares de surrealidade (só assim, do hipotético sobre o hipotético, para conseguir externar o que ainda não existe classificação no universo), como aquele em que um presidente que era amigo de um empresário, a ponto de ser convidado para o casamento deste ou recebê-lo, sem agenda, em um final de noite na sua casa oficial de vice-presidente, escutar calmamente o empresário falar de corrupção em altíssimas falcatruas (inclusive comprar juízes e procuradores!) e ainda responder calmamente dando indicações e possíveis saídas sobre tais falcatruas, para que o empresário continuasse ileso e os dois não fossem denunciados por quem já está na cadeia e sabe muita coisa sobre os crimes que eles cometem/cometeram/cometerão (lá, o importante da política é essa sagacidade!). Imagine agora que esse encontro tenha sido gravado em áudio e as gravações tornadas públicas. Aí torna-se óbvio o fim de uma linda amizade e cabe ao presidente dizer que tudo aquilo foi uma armação contra ele e que as gravações foram editadas, apesar da perícia da PF comprovar que não foram; para aumentar o teatro de horrores, ainda registra queixa crime contra o então ex-amigo, o empresário; depois viaja fingindo que não há crise dizendo que vai fazer política nos países nórdicos, aqueles das terras descritas por J. R. R. Tolkien na obra Senhor dos Anéis e bem mais idôneas (aí se deu o encontro da espécie mais evoluída com a mais primitiva, isto é, o homem-norueguesis com o homem-sarneys). Da parte dos advogados, que estão no papel deles de judicializar o acontecido, cabe dizer que gravações feitas sem autorização judicial não servem como prova e outros blás, blás, blás para justificar os milionários honorários, pagos em FHCs* e através de propina, o que foi comprovado através de uma ligação gravada entre um senador playboy que nunca fez nada pelo povo nem da terra dele – (ex)queridinho da classe média, esta que nunca teve projeto de país, mas veste camisa da seleção Terra Média para manifestações de rua; o dito senador foi segundo lugar nas últimas eleições e, como um bebê chorão, nunca aceitou a derrota – e o mesmo empresário (amigão esse empresário que distribui milhões!), na qual o dito senador pediu dois milhões de FHCs* para pagar os advogados que estavam defendendo-o contra as inúmeras acusações de falcatruas em uma mega operação de combate à corrupção. Operação esta que eles (o presidente atual e seus asseclas, a exemplo do citado senador) instigaram-na no início para pegar o partido de oposição, mas agora querem estancá-la, pois depois que levaram muitos do partido que estava no poder e, com isso, inclusive, tomaram o poder, viram que o tiro saiu pela culatra, pois o momento indica que chegou a hora deles (mesmo que parte da Suprema Corte da inusitada Terra Média queira salvá-los), porém, até essas palavras escritas as denúncias não passam de denúncias que não foram a frente. A Suprema Corte livrou o senador e a Câmara, o presidente.

*FHC é a moeda da Terra Média. O nome vem de seu tutor, um grande acadêmico que também foi presidente da Terra Média e poderia ser lembrado como estadista e gestor de uma moeda que foi criada para estabilizar a economia e melhorar a vida do país e o poder de compra dos mais desabastados. Mas o bichinho da tolice mordeu esse ex-presidente e ele resolveu perpetuar-se em outro mandato, que não era possível, mas passou a ser a partir de compra de votos em um movimento chamado emenda reeleição. Por causa da moeda criada, esse presidente foi eleito em dois mandatos no primeiro turno, mas seu segundo mandato foi uma catástrofe e assim ele perdeu a oportunidade de sair da presidência como um bom estadista.

Comece a perceber que a Terra Média subverte qualquer lógica do capital, seja ela liberal ou keynesiana. Ao eliminar a concorrência do mercado através de empresas que são escolhidas pelo Estado para o superfaturamento, e estas aceitam esse papel, destrói-se a máxima da lógica liberal de minimizar o poder do Estado pelo comando concorrencial do mercado; e ao mesmo tempo que o Estado se junta com grandes empresas para lesar a si próprio dando vantagens apenas aos políticos que participam do esquema e à empresa, que passa a ter um poder de mercado disfarçado sob a tutela do Estado, o keynesianismo está sendo subvertido, pois na negociata não há nenhuma vantagem nem contrapartida estatal para a sociedade. Portanto, o sistema capital da Terra Média é único e não importa o nome, o que importa mesmo é o enriquecimento ilícito de quem participa do esquema. Dentro desse esquema, o Senhor dos Anéis dessa Terra Média mais a oeste da de J. R. R. Tolkien e após o oceano, chama-se Cabral, não o descobridor das terras, mas um governador que roubou com tanta força e gana que teve que parar na cadeia e parte dos milhões que roubou foi investido em inúmeros anéis, tantas joias que 95% delas ainda estão escondidas.

Os anéis não achados do senhor Cabral abrem uma análise bem simples, apesar da complexidade de esquemas que envolvem a Terra Média. Se os políticos fossem pegos pela Receita Federal para explicar a incompatibilidade do patrimônio com seus recebimentos mensais ou anuais, não sobraria quase nenhum, mas já foi falado que, na Terra Média, a ordem do sempre e do dia é subverter qualquer lógica que atrapalhe o andamento “correto” das coisas através da política (as aspas explicam que o andar correto politicamente é o que está acontecendo e vem desde a colonização dessa forma). Só o povo tem que andar na linha, senão, esse sim, vai para a cadeia e tem que devolver o que subtraiu; e se tiver renda incompatível com o patrimônio é pego rápido. Quer um exemplo do andamento “correto”? Uns políticos da capital federal desviaram R$ 900 milhões da construção de um estádio; o fato foi comprovado, eles ficaram uma semana na cadeia e já estão soltos com o detalhe de que não devolveram nada do que desviaram para, até que o povo esqueça do ato, que sejam felizes para sempre.

Dentre outras contradições políticas, a grande mídia desse país de muitas depressões, através da tv de maior audiência, quer, por cima de tudo, derrubar o atual presidente e isso gerou uma caraminhola na cabeça dos radicais mais vermelhos e contrários à presidência, pois essa mesma tv é classificada, pelos radicais vermelhos, como golpista. A Terra média é tão complexa (35 partidos e uma ideologia: a do poder pelo poder) que seria complicado se tentássemos a compreensão pela ideologia, que conforta o coração mas atrapalha e distorce o real entendimento, mas como não temos (mais) juízo por ideologia, uma das explicações plausíveis é devido ao referido presidente ter vetado empréstimos via BNDES para essa tv (que já deve uma fábula de FHCs ao citado banco estatal). Cada qual defendendo seus interesses e isso não tem nada a ver com interesses da sociedade, apesar do dinheiro ser público. Em suma, a tv, como grande empresa, quer o dinheiro mais barato possível para, se possível, não pagar até que seja renegociada a dívida em infinitas prestações e a juros baixíssimos; o presidente, como um dos dinossauros da velha política da “Nova República”, quer se manter no poder a qualquer custo e dificultar a vida, não importa como, de quem tenta impedi-lo; já a massa (de manobra) dos militantes vermelhos querem a volta do também catastrófico governo anterior, através do comando de bastidores do seu líder maior, outro dinossauro criado na velha política (ex-aliado do atual presidente e amigo do mesmo empresário, que, em seu governo conseguiu R$ 8 bilhões emprestados do BNDES a juros de 5%, mas tomados a 15%, acredite!), ou aquele que teve dois mandatos e a maior chance de todas para fazer as reformas como um verdadeiro estadista em prol da sociedade, mas preferiu o egoísmo de tocar seu projeto de poder particular e partidário pelo populismo mais rasteiro possível e através da parceria com grandes empresas que, junto com o Estado, fraudaram o próprio Estado no que se tornou o maior esquema de corrupção do sistema planetário que comporta a Terra Média. Nesse contexto, muitos pensam que é o Estado que manda; sabem de nada, inocentes, porque quem manda mesmo são as grandes empresas, mas só as amigas dos políticos que fazem jorrar o propinoduto; o Estado é só um agente que atende aos interesses desses mega empresários, mas que usa seu poder de retórica pra dizer que tudo é feito pelos interesses da sociedade.  

Essas mesmas empresas são as que contribuíram com o chamado caixa 2 das campanhas políticas de mais da metade (fala-se em 70%) dos que estão eleitos no Congresso. Agora tais empresas cobram a contrapartida através das reformas, trabalhista e previdenciária, que o governo quer imprimir a ‘toque de caixa’ sobre os reais trabalhadores, fazendo-os até acreditar e repetir um mantra de país quebrado sempre por culpa do assalariado, ou seja, deles próprios! O questionamento mais claro é dizer que: se essas reformas que a classe política repete como sendo muito boas para o trabalhador comum fossem realmente em prol desses assalariados, porque políticos, juízes, procuradores, militares e outras categorias da chamada elite não querem e nem vão participar de coisa tão vantajosa? E supondo que se as coisas não são tão boas assim, aprendemos que o exemplo, para que seja seguido sem grandes questões, deve e tem que vir de cima. Todavia, a Terra Média existe para subverter qualquer lógica.  

Ainda bem que, na lógica planetária que vivemos ou nos nossos universos cerebrais, esse tipo de gente do relato acima não é passível de participação do nosso ciclo social de debate/convivência, pois pensando na resposta a esses casos fictícios em nossa caixa craniana, a única certeza em um mínimo entendimento social é que querem brincar com a inteligência dos cidadãos comuns, assim como eles, da classe política (e, agora mais que nunca, empresarial), sempre fizeram e nunca se preocuparam se a opinião pública está certa (sinônimo de contra), pois a ordem do dia continua(rá) a mesma: roubar, lesar, subtrair como e onde puder, mas abafar qualquer que seja a falcatrua cometida, por mais que esta se mostre óbvia, pois esse asfixiamento dos casos é apenas uma questão de tempo, geralmente até o aparecimento de outros crimes voltados para a subtração do erário e de formas cada vez mais criativas, quiçá impossíveis (lema: nada do ilícito é impossível na Terra Média). Mesmo porque, a corrupção político-empresarial no capitalismo financeiro e monopolista da Terra Média é tão dinâmica e complexa que a memória popular, coisa que sempre se mostrou curta, torna-se mais breve ainda; aí está uma estrada pavimentada e larga para que a degradação moral ande em uma velocidade muito acima do limite plausível. O céu tornou-se o limite e, diante dos fatos, o monitoramento para a manutenção da massa popular sob controle é o mais importante para ter a chancela de que os esquemas ilícitos mudarão, mas continuarão e quem foi pego e não tem informação importante para delação premiada que se dane. É claro que o povo precisa ter seu ópio através da religião, do carnaval, do futebol, das festas regionais e etc, mas nem deveria ser tanto torpor e nem apenas no intuito do pão e do circo como é na Terra Média.  

O elemento principal dessa permissividade popular é a economia e, nesse contexto direto, o significado de popular perfaz 12% da população realmente classificada como classe média (mais de 5 salários mínimos). Desses 12, 5% (mais de 20 salários mínimos) fazem parte da parcela que não participa das crises e estão preocupadas puramente com os rumos que a economia dará em suas contas bancárias e salariais.

O pior é uma boa parcela dessa classe média que resta (7%) achar que é e incorporar a classe dominante, também chamada de elite, ao qual toda a classe político-empresarial e a das decisões jurídicas fazem parte. Usando uma metodologia criativa, oficialmente disseram ao pobre que ele também era classe média (criaram letras e deram a eles a letra C); a maior parte acreditou e saiu às compras no Shoppings e Cia. Pela via da dominação ideológica os desabastados acreditaram ser classe média; o resultado? Consumo sem critério de qualidade, aumento da inadimplência e volta da classe C à classe P de pobre ou de origem. Enfim, a classe média é só média e a citada boa parte dela serve direitinho à manutenção dos interesses da casta superior e suas reformas (outra forte premissa social para o território intitular-se Terra Média). Quanto ao elemento principal ou a permissividade que anestesia a capacidade de manifestação da população, principalmente através da intitulada classe média, explico-lhes. Basta que o governo, por mais corrupto que seja, esteja dando sinais de recuperação ou crescimento econômico que isso serve como antídoto ou anestésico contra os crimes cometidos pelos asseclas do poder. Mesmo que a recuperação seja uma meia-verdade com muita mentira, ou seja, não esteja acontecendo na velocidade e intensidade que o governo divulga repetidas vezes, pela metodologia que mais convém, e faz o povo acreditar que está realmente acontecendo, até a ponto de gerar divergência entre economistas. Em suma, é como se a recuperação econômica servisse como uma chancela para o perdão dos crimes de corrupção extrema da classe política (e empresarial), por mais hediondos que sejam. Coisas como honestidade, lisura e idoneidade pouco importam se a grande maioria passa a acreditar que a economia vai bem, pois na Terra Média a economia está acima de tudo! Mesmo porque, esse volume de roubalheira já evoluiu até chegar ao nível de um belo paradoxo, pois são crimes cometidos por quem está na situação e por quem se encontra na oposição; isso faz os dois lados se unirem por um “bem maior”, ou seja, pelo dom da liberdade judicial e pelo dom de mais liberdade para cometer mais crimes contra o erário, mas sempre em nome do povo! (leia-se: em nome do emprego, para não fugir do tema economia). Afinal, a dominação político-ideológica tem que manter a população controlada (inclusive incitando os militantes ingênuos – famosa massa de manobra – a brigarem pela polaridade de azuis X vermelhos), através do pão e circo (mesmo que seja muito mais circo que pão), e fazê-la continuar a acreditar que ela (a população que realmente trabalha duro diariamente e é a grande maioria!) e o país estão nesse patamar por culpa da incapacidade da força de trabalho dela própria, pela via da meritocracia que ela nunca viu porque nunca passou em sua frente, mas que é importante acreditar em uma (remota) possibilidade, qualquer que seja, mesmo que o termo meritocracia se torne (ou já seja) um dogma.

Ainda bem que tudo isso é só devaneio. Se não fosse, não sei como o povo dessa fictícia Terra Média viveria e também não sei como seus políticos teriam coragem de sair de casa, caso tivessem o que minha saudosa vó chamava de mínimo de vergonha na cara.

 

Marcos Bau é professor de humanas e leitor curioso. Tem duas crianças e, mesmo sendo realista, tenta ser otimista quanto ao futuro. Não faz parte de nenhum partido político, nenhuma minoria e nem é militante de causa alguma.