A América Latina e suas Territorialidades

Por Marcos Bau Brand√£o – texto atualizado em agosto de 2015



Devido ao passado hist√≥rico comum dos territ√≥rios colonizados pela Am√©rica espanhola, Sim√≥n Bol√≠var* divulgou, em 1815, a Carta da Jamaica, que afirmava sua vontade de formar uma confedera√ß√£o hispano-americana com regi√Ķes que foram dominadas pelo Imp√©rio Espanhol, por professarem a religi√£o cat√≥lica, l√≠ngua espanhola e tamb√©m pela proximidade geogr√°fica. Ficava de fora do projeto bolivariano: os EUA, pelo ide√°rio expansionista que seria externado pela ‚ÄúDoutrina Monroe‚ÄĚ pautado na ‚ÄúAm√©rica para os Americanos‚ÄĚ (1823), o Brasil e o Haiti que ainda n√£o tinham proclamado a independ√™ncia.

*Militar e l√≠der pol√≠tico venezuelano que lan√ßou bases democr√°ticas lutando pela independ√™ncia dos territ√≥rios da Am√©rica Espanhola do Imp√©rio Espanhol. Entre 1819 e 1830 foi presidente da Gr√£-Col√īmbia (hoje onde est√£o os pa√≠ses da Col√īmbia, Equador, Venezuela e Panam√°).

S√≥ em 1824, Bol√≠var convocou l√≠deres das principais capitais do continente para o projeto de interliga√ß√£o das Am√©ricas. Em 1826 aconteceu a reuni√£o do Panam√°, mas fracassou pelo esvaziamento** devido √† falta de tempo em avisar a todas as na√ß√Ķes, e pelos EUA n√£o concordarem com envio de tropas para lutar contra os espanh√≥is pela independ√™ncia de Porto Rico e Cuba. Outro problema para os EUA eram os brit√Ęnicos que ainda lutavam em territ√≥rio ianque.

**Participaram Gr√£-Col√īmbia, M√©xico, Peru e Federa√ß√£o Centro-Americana (El Salvador, Nicar√°gua, Honduras e Costa Rica).

O in√≠cio do entendimento da territorialidade norte-americana sobre o territ√≥rio latino vem desde a √ļltima d√©cada do s√©culo XVIII, quando o primeiro secret√°rio do Tesouro norte-americano, Alexander Hamilton (1755-1804), lan√ßou projeto afirmando que os EUA tinham que liderar a nova ordem de todo o continente americano.

Mapeando a Am√©rica Hisp√Ęnica, esta envolvia o Vice-reino da Nova Espanha, o Vice-Reino da Nova Granada e o Vice-reino do Rio da Prata (veja no mapa que segue). O pr√≥prio Bol√≠var sabia que devido a essa vastid√£o territorial era muito dif√≠cil uma unifica√ß√£o em um s√≥ Estado-nacional. Esse foi um dos principais aspectos de enfraquecimento do projeto bolivariano e sua dissolu√ß√£o contribuiu para o aparecimento de uma identidade latino-americana, pela via da influ√™ncia francesa (atrav√©s de Napole√£o III), que tinha o interesse de estabelecer uma fronteira entre a Am√©rica Anglo-Sax√īnica dos EUA e Canad√° e uma Am√©rica Latina dos demais pa√≠ses voltados para o Sul.

Col√īnias espanholas e portuguesas. Bol√≠var pretendia a unifica√ß√£o dos Estados em amarelo. Fonte:¬†TERRA, Lygia; ARAUJO, Regina; GUIMAR√ÉES, Raul Borges. Conex√Ķes: estudos de geografia do Brasil. S√£o Paulo: Moderna, 2009, p. 344.

Napole√£o III procurou projetar sua influ√™ncia sobre o Novo Mundo e interveio, entre 1862 e 1867, em uma guerra no M√©xico aproveitando o enfraquecimento norte-americano com a Guerra de Secess√£o (1861-1865 ‚Äď Estados do Sul agr√°rio contra os do Norte mais industrializado). A interven√ß√£o no M√©xico para conter a hegemonia norte-americana dep√īs o presidente Benito Ju√°rez e chegou a coroar o imperador austr√≠aco Maximiliano de Habsburgo em apoio √† oposi√ß√£o do governo, sob a acusa√ß√£o que tal governo funcionava como uma extens√£o de obedi√™ncia a Washington.

Este artigo atende aos fins de leitura e pesquisa e pertence ao blog GeoBau (http://marcosbau.com.br). Proibida a reprodu√ß√£o pelo Art. 184 do C√≥digo Penal e Lei 9.610/98 de Direitos Autorais. Se for usar partes do texto cite a fonte. PL√ĀGIO √Č CRIME. DENUNCIE.¬†

A invas√£o para ‚Äúajudar‚ÄĚ (lendo as aspas = exercer influ√™ncia sobre) os pa√≠ses da Am√©rica arruinou as finan√ßas francesas e obrigou Bonaparte a retirar suas tropas do territ√≥rio mexicano. Maximiliano, em 1867, foi capturado e morto pelo liberais mexicanos – liderados pelo ex-presidente Benito Ju√°rez – e apoiados pelos Estados Unidos. A Fran√ßa se enfraqueceu mais ainda quando perdeu a guerra franco-prussiana, em 1871, e com isso encerrou sua tentativa de dom√≠nio na Am√©rica.

A Territorialidade Norte-Americana

Entre 1889 e 1954 aconteceram as Confer√™ncias Pan-americanas dentro dos princ√≠pios do pan-americanismo e, desde o s√©culo XIX, a consolida√ß√£o desse projeto vinculado aos EUA (que se pautava na Doutrina Monroe) teve a contribui√ß√£o da pol√≠tica externa brasileira, pois o chanceler Bar√£o do Rio Branco (1902-1912) era um pan-americanista que defendia uma aproxima√ß√£o mais estreita com as rep√ļblicas hispano-americanas, assim como, uma parceria privilegiada entre Brasil e os Estados Unidos.

No p√≥s II Guerra, em 1948, foi criado um organismo permanente na Confer√™ncia de Bogot√°, a Organiza√ß√£o dos Estados Americanos ‚Äď OEA que se assentava na coopera√ß√£o interamericana, certificando a lideran√ßa dos EUA em uma √©poca de in√≠cio da Doutrina Truman, que tinha na bipolaridade o principal aspecto de conter o socialismo sovi√©tico. Isso fez com que houvesse uma maior proximidade dos EUA com os pa√≠ses da Am√©rica Latina, no espectro da territorialidade norte-americana, sob um motivo principal: a estrat√©gia de conten√ß√£o do socialismo sovi√©tico.

A Confer√™ncia do Rio de Janeiro, acontecida em 1952, resultou na assinatura do Tratado Interamericano de Ajuda Rec√≠proca ‚Äď TIAR, que tamb√©m nasceu nesse contexto de bloquear o expansionismo sovi√©tico e subordinou as for√ßas armadas dos Estados americanos √† geopol√≠tica de Washington. Conforme tais eventos, ao final da Guerra Fria, a Am√©rica do Sul certificou que os interesses dos EUA sempre seguiram seu ‚Äúdestino manifesto‚ÄĚ, isto √©, uma influ√™ncia cada vez mais interplanet√°ria puramente tecida para obter vantagens geopol√≠ticas e comerciais, mantendo a Am√©rica Latina sob a tutela dos EUA. Essa certifica√ß√£o veio quando os EUA, em 1982, na guerra das Malvinas, apoiaram a Inglaterra (sua aliada na OTAN) quando pelo TIAR deveriam apoiar a Argentina.

No curso cronol√≥gico dos acontecimentos geopol√≠ticos, com a Revolu√ß√£o Cubana, em 1959, havia uma grande preocupa√ß√£o com a invas√£o do sistema sovi√©tico em um sistema interamericano, desde sempre comandado pela polaridade capitalista liderada pelos EUA. Em abril de 1961, o presidente Kennedy – atrav√©s da CIA – fracassou ao armar exilados cubanos para tentar tomar o poder de Fidel Castro na invas√£o da Ba√≠a dos Porcos. Em 1962 foi a vez da Crise dos M√≠sseis, que gerou uma grande tens√£o geopol√≠tica resolvida pela promessa norte-americana de n√£o invadir a ilha, mas Cuba depois desse epis√≥dio foi expulsa da OEA (essa resolu√ß√£o de 1962 foi suspensa em 2009 e a partir da√≠ Cuba p√īde voltar a participar da OEA – veja artigo sobre o assunto) .

A esfera de influ√™ncia norte-americana n√£o parou por a√≠. Nas d√©cadas de 1960 e 1970, a estrat√©gia de conten√ß√£o deu lugar √† pr√°tica de financiamentos de ditaduras militares na Am√©rica do Sul inclusa na chamada doutrina de ‚Äúseguran√ßa nacional‚ÄĚ, que derrubou governos civis no Brasil (1964), na Bol√≠via (1971), no Chile (1973), na Argentina (1976) e no Uruguai (1976).

A estrat√©gia de unifica√ß√£o norte-americana fundamentou-se no campo de integra√ß√£o comercial. Assim surgiu o projeto da ALCA (√Ārea de Livre Com√©rcio das Am√©ricas) como diretriz da “nova” geopol√≠tica e geoeconomia de Washington, que ser√° abordada adiante.

Os Blocos Econ√īmicos da Am√©rica Latina

Em uma atmosfera de descoloniza√ß√£o africana e asi√°tica, assim como da Confer√™ncia Afro-Asi√°tica de Bandung (1955) e do movimento dos Pa√≠ses N√£o- Alinhados, em Belgrado (1960), o Terceiro Mundo exigia uma maior aten√ß√£o para diminuir o abismo econ√īmico entre os pa√≠ses do norte comparado com os do sul (para entender melhor leia Terceiro Mundo e Terceiro Mundismo).

Nesse campo de integra√ß√£o comercial, o Tratado de Montevid√©u faz surgir a Associa√ß√£o Latino-Americana de Livre Com√©rcio (Alalc), em 1960, com os pa√≠ses membros: Argentina, Brasil, Chile, M√©xico, Peru, Paraguai e Uruguai. O livre com√©rcio estabeleceria um mercado comum. A Alalc tinha como principal premissa a integra√ß√£o econ√īmica entre Brasil, M√©xico e Argentina (os ‚ÄúTr√™s Grandes‚ÄĚ da Am√©rica Latina) devido ao crescimento industrial que se apresentava para esses pa√≠ses, mas haviam muitas diferen√ßas entre esses “Tr√™s Grandes” se comparadas com os demais pa√≠ses do bloco regional. Isso fez com que a ideia do bloco fosse abandonada mesmo ap√≥s a abertura, para entrada, em 1970, de Bol√≠via, Col√īmbia, Equador e Venezuela.

No mesmo prop√≥sito da Alalc nasceu o Mercado Comum Centro-Americano ‚Äď MCCA, tamb√©m em 1960, para integrar as economias da Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicar√°gua e El Salvador. Com o enfraquecimento da Alalc, em 1969, foi a vez do Pacto Andino surgir e anexar a Bol√≠via, Peru, Equador e Col√īmbia (posteriormente Venezuela que se retirou em 2006 pelo Peru e Col√īmbia terem fechado acordos bilaterais com os EUA). A partir de 1996, o Pacto Andino passou a se chamar Comunidade Andina das Na√ß√Ķes ‚Äď CAN.

O Tratado de Montevid√©u, assinado em 1980, substituiu e deu continuidade a Alalc atrav√©s da Associa√ß√£o Latino-Americana de Integra√ß√£o ‚Äď ALADI e se baseou na no√ß√£o de autonomia de decis√Ķes dos Estados-membros, focando na prioridade do desenvolvimento dos mercados ligados ao com√©rcio latino-americano e condizentes com as novas perspectivas do cen√°rio internacional.

O crescimento industrial dos emergentes e a integra√ß√£o em blocos comerciais associado √† distens√£o das rela√ß√Ķes comerciais com os pa√≠ses desenvolvidos da Europa contribu√≠ram para d√©ficits na balan√ßa comercial norte-americana, desde meados da d√©cada de 1970. Mais de 60% do d√©ficit dos EUA resulta do com√©rcio com seus principais parceiros (Canad√°, M√©xico, Jap√£o, China e Uni√£o Europeia). Esses saldos negativos, h√° tr√™s d√©cadas, s√£o cobertos pelas remessas de lucros que as filiais das multinacionais remetem para o espa√ßo norte-americano junto aos investimentos externos.

Dessa perda de mercado surgiu no ide√°rio norte-americano o projeto da √Ārea de Livre Com√©rcio das Am√©ricas ‚Äď ALCA, para consolidar a influ√™ncia geopol√≠tica das Am√©ricas, direcionada ao dom√≠nio comercial interplanet√°rio, atrav√©s da exporta√ß√£o de bens da tecnologia de ponta para o Cone Sul, que, por sua vez, possui um com√©rcio voltado principalmente para a Uni√£o Europeia.

Mapa dos blocos de integração da América Latina. Fonte: Blog Conectegeo. Clique na imagem para uma melhor visualização.

O presidente Bush anunciou, em 1990, meta de chegar a uma zona de livre com√©rcio entre as Am√©ricas do Norte, Central e do Sul e ao mesmo tempo anunciou o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Com√©rcio, com EUA e Canad√°) que teve a inclus√£o do M√©xico em 1992. Em 1994 foi discutida a zona livre de com√©rcio de todos os pa√≠ses da Am√©rica, ALCA (menos Cuba), na I C√ļpula das Am√©ricas (realizada em Miami).

Com a inclus√£o do M√©xico no Nafta, quando parecia que o projeto da ALCA estava come√ßando a dar certo veio a crise cambial mexicana, em 1994, onde uma emin√™ncia de revolu√ß√£o pelos Chiapas (nativos do Sul do M√©xico) causou o chamado ‚Äėefeito tequila‚Äô, quando houve a fuga de mais de US$ 8 bilh√Ķes dos bancos mexicanos e os EUA tiveram que injetar US$ 40 bilh√Ķes nessa economia. A crise mexicana afastou os EUA do Chile em um acordo de coopera√ß√£o bilateral que estava prestes a ser assinado.

Países do Nafta. Fonte:  SENE, Eustáquio; MOREIRA, João Carlos. Geografia geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2010, p. 430.

A aproximação dos EUA com a América Рatravés do Nafta Рtornou o México e o Canadá mais dependentes, pois o comércio entre os membros aumentou Рreduzindo fluxos principalmente da União Europeia -, porém, mais de 80% do PIB intra bloco é movimentado pelos norte-americanos. A aproximação dos EUA com o Chile pela APEC*** segue a mesma lógica de aumento do mercado Americano, sob sua tutela, como tentativa de recuperar os saldos da balança comercial que, como escrito anteriormente, desde meados da década de 1970 fecham em déficit.

***Coopera√ß√£o da √Āsia e do Pac√≠fico – nasceu como f√≥rum de discuss√£o, em 1989, e virou bloco econ√īmico em 1994, quando foi firmado o comprometimento de uma √°rea de livre com√©rcio a se formar at√© o ano de 2020. Composto por 21 pa√≠ses da bacia do Pac√≠fico. Nas ¬†Am√©ricas participam os EUA, o M√©xico e o Chile.

Um grande golpe nos planos dos EUA foi o andamento da parceria, na década de 1980, entre Brasil e Argentina, resultando na Ata de Iguaçu em 1985, um embrião do Mercosul que, por sua vez, seria assinado através do Tratado de Assunção em 1991. Evoluiu para união aduaneira em 1995, com a fixação da Tarifa Externa Comum (TEC).

O Mercosul passou a ser realidade econ√īmica e prioridade diplom√°tica dos membros (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – Venezuela pediu ades√£o em 2006 e em 2012 foi aceita. O ¬†Paraguai n√£o participou da ades√£o venezuelana)**** enfraquecendo cada vez mais o projeto norte-americano da ALCA, que al√©m da estrat√©gia geopol√≠tica de ‘tutelar’ toda a Am√©rica, tinha no Brasil a visualiza√ß√£o da vastid√£o desse mercado para instala√ß√£o de mais transnacionais.

****O Paraguai foi temporariamente suspenso da UNASUL e do Mercosul, em junho de 2012, devido a um controverso julgamento pol√≠tico que culminou em um ‘ultra-r√°pido’ impeachment do presidente Fernando Lugo, decorrente de conflito agr√°rio que gerou a morte de 17 pessoas, e sendo assim, a¬†oposi√ß√£o acusou o presidente de ter agido mal no caso e de estar governando de maneira “impr√≥pria, negligente e irrespons√°vel”. A sa√≠da de Lugo foi¬†encarada pelo governo e pela comunidade de pa√≠ses sul-americanos como um golpe. Ap√≥s novas elei√ß√Ķes que elegeram outro presidente, o Paraguai voltou ao Mercosul no final de 2013.

Presidente Dilma Rousseff posa para fotografia oficial da C√ļpula Extraordin√°ria do Mercosul. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR. Fonte: Blog do Planalto.

Eventos como a desvalorização cambial brasileira, em 1999, e a crise argentina, entre 2001 e 2002, fizeram com que a capacidade de consumo reduzisse afetando na queda das trocas comerciais Brasil-Argentina. Não obstante, a Argentina adotou medidas protecionistas para barrar a entrada de produtos brasileiros em seu mercado. Vinte anos depois de formado, o Mercosul enfrenta sérios problemas que o ameaçam até de extinção. São os principais problemas atuais: parceria Brasil-China, disputas ambientais Uruguai-Argentina pela implantação de fábrica de celulose no Uruguai, adesão da Venezuela que tem outro projeto geopolítico, Brasil com 70% do mercado intra bloco, etc.

Com as diverg√™ncias no interior do Mercosul, em 2000, no governo FHC, houve uma Confer√™ncia em Bras√≠lia que reuniu os chefes de Estado do Cone Sul e assim¬†foi criada a Iniciativa para¬†Integra√ß√£o da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), cujo objetivo principal¬†era a elabora√ß√£o de planos para as √°reas de integra√ß√£o f√≠sica e infraestrutura que¬†modernizasse as rela√ß√Ķes e potencializasse a proximidade sul-americana. Na 3¬™ reuni√£o da IIRSA, discutiu-se a¬†converg√™ncia dos interesses pol√≠ticos, econ√īmicos, sociais, culturais e de¬†seguran√ßa, como um fator potencial de fortalecimento e desenvolvimento e dessa forma aconteceu a cria√ß√£o da¬†Comunidade Sul-Americana das Na√ß√Ķes (CASA). Depois da 1¬™ C√ļpula Energ√©tica Sul-Americana, que tamb√©m reuniu Presidentes da Am√©rica do Sul, em 2004 na Venezuela, a CASA virou Comunidade Sul-Americana de Na√ß√Ķes, e finalmente, em 2007, Uni√£o dos Pa√≠ses do Sul-Americanos (UNASUL), envolvendo os 12 pa√≠ses do Cone Sul, cujo objetivo √© criar um espa√ßo integrado no √Ęmbito pol√≠tico, social, ambiental e infraestrutural que integre o Mercosul, Comunidade Andina, Chile, Guiana e Suriname (veja mapa que segue).

Blocos CAN, Mercosul e UNASUL. Fonte: SENE, Eust√°quio; MOREIRA, Jo√£o Carlos. Geografia geral e do Brasil. S√£o Paulo: Scipione, 2010, p. 434. Com altera√ß√Ķes.

Nesse contexto, o projeto da ALCA foi abandonado em 2005 por divergência entre EUA, Brasil e Argentina. Para o Brasil, o projeto geopolítico que mais faz sentido é o que interliga a América do Sul. Enquanto a ALCA está adormecida, a estratégia dos EUA é de estabelecer tratados de livre comércio bilaterais (TLCs além do Nafta, com Chile, Peru, Equador e alguns países da América Central).

Em 2004, um acordo de integra√ß√£o pol√≠tica anti-EUA entre Venezuela e Cuba formou a Alternativa Bolivariana para os Povos da Nossa Am√©rica (ALBA – hoje chamada de Alian√ßa Bolivariana para as Am√©ricas). Atualmente a lideran√ßa pol√≠tico-ideol√≥gica √© da Venezuela (pelas vantagens na venda de petr√≥leo aos signat√°rios) e conta com os membros: Bol√≠via, ¬†Nicar√°gua, Dominica, Equador, Antigua e Barbuda e S√£o Vicente e Granadinas. A ideia iniciada por Hugo Ch√°vez era integrar toda a Am√©rica Latina sob o comando da Venezuela. Ap√≥s a morte de Ch√°vez e a elei√ß√£o de seu sucessor, Nicol√°s Maduro, a ALBA – que recebeu esse golpe de enfraquecimento – deve ser retomada em seu conte√ļdo original.

Nesse contexto e dentre todos os problemas geopol√≠ticos entre os blocos do Cone Sul (nesse caso: Mercosul, Unasul e Alba), o aceite da Venezuela no Mercosul faz esse bloco¬†contar com uma popula√ß√£o de 270 milh√Ķes de habitantes e um PIB em torno de US$ 3 trilh√Ķes, o que representa cerca de 83% do PIB sul-americano e 70% da popula√ß√£o da Am√©rica do Sul. Para a Venezuela, a import√Ęncia √© de fugir cada vez mais da depend√™ncia da venda de petr√≥leo para os EUA (na ordem de 50% do petr√≥leo venezuelano √© vendido aos EUA) e tamb√©m n√£o seguir o caminho comercial trilhado pelo M√©xico depois da sua inser√ß√£o no NAFTA, onde mais de 80% das exporta√ß√Ķes mexicanas v√£o para os EUA, tornando este pa√≠s latino completamente dependente dos norte-americanos.

Nota-se que apesar do afastamento da ALCA, principal projeto dos EUA para as Am√©ricas, o Brasil tenta fortalecer o projeto da UNASUL sob a sua lideran√ßa tentando aproximar o Cone Sul, mas diverg√™ncias entre os pa√≠ses do Mercosul (Argentina n√£o aceita lideran√ßa brasileira), associadas ao tamb√©m divergente projeto venezuelano da ALBA, fazem com que o alinhamento te√≥rico n√£o corresponda ao que acontece na pr√°tica. Por√©m, com a entrada da Venezuela no Mercosul, o desdobramento poder√° ser direcionado para uma UNASUL a partir do fortalecimento do Mercosul. Al√©m disso, com vistas a fortalecer as rela√ß√Ķes entre os pa√≠ses da regi√£o, √© importante lembrar que o Brasil prop√īs, em 2008, a realiza√ß√£o da I C√ļpula da Am√©rica Latina e do Caribe sobre Integra√ß√£o e Desenvolvimento (CALC) composta por 33 pa√≠ses que comp√Ķem a Am√©rica Latina e o Caribe.

Em 2012 foi assinada a Alian√ßa do Pac√≠fico, como uma √°rea de livre com√©rcio e integra√ß√£o econ√īmica que abarca cerca de 35% do PIB latino-americano, na qual fazem parte os pa√≠ses Chile, Col√īmbia, Costa Rica, M√©xico e Peru. Mais um ingrediente geopol√≠tico para a Am√©rica Latina, com volume de exporta√ß√Ķes dos pa√≠ses membros sendo maior que o Mercosul. ¬†

 

11 thoughts on “A Am√©rica Latina e suas Territorialidades

  1. √© mesmo muito bom mesmo pra ajudar nos estudos ūüôā

    Mas tenho 2 perguntinhas:

    1 – UNASUL √© considerado um novo bloco econ√īmico regional?

    2 РPorque os países do Mercosul consideram a entrada da Venezuela no bloco, sabendo do seu ideal anti-americano?

    • Fico feliz em poder ajudar. Vamos √†s respostas:

      1 – UNASUL n√£o √© um bloco econ√īmico e sim um organismo internacional que tem como objetivo objetivo construir, de maneira participativa e consensual, um espa√ßo de articula√ß√£o no √Ęmbito cultural, social, econ√īmico e pol√≠tico entre seus povos, isto √©, promover a integra√ß√£o entre os pa√≠ses membros e pode evoluir para uma zona de livre com√©rcio.
      Informação do Itamaraty: http://www.itamaraty.gov.br/temas/america-do-sul-e-integracao-regional/unasul

      2 – Conforme os defensores por uma quest√£o econ√īmica e de integra√ß√£o do Cone Sul (lembrando que dos membros ainda falta o Paraguai chancelar essa entrada). A fala do Senador Pedro Simon (PMDB-RS) na √©poca bem define isso: “Apesar de tudo, eu sou favor√°vel √† integra√ß√£o na Am√©rica do Sul. Se fosse pelo presidente da Venezuela, eu jamais falaria em integrar a Venezuela ao Mercosul. Mas o presidente da Venezuela passa, essas quest√Ķes ficam”. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u666908.shtml

  2. Parab√©ns, Bau. O blog est√° excelente! As suas publica√ß√Ķes a respeito do Jap√£o, China e Am√©rica Latina foram esclarecedoras. Voc√™ j√° pensou em escrever um livro de Geografia? Um abra√ßo.

  3. Caro professor,
    Observei em par√°grafos iniciais √† respeito de Simon Bol√≠var que a data de trajet√≥ria de sua carreira pol√≠tica como l√≠der da Gr√£-Col√īmbia est√° incorreta, pois esta se deu entre 1819 a 1830.
    Att,
    Guilherme
    Abs!

  4. professor parabenizo pelo excelente trabalho e gostaria de saber se posso repassar aos meus alunos o seu blog como fonte de pesquisa ja que trabalho com geografia (fundamental, medio e pre vestibular)

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