Conferências de Teerã, Yalta e Potsdam / Doutrina Truman e Plano Marshall


Por Marcos Bau Brandão
Em setembro de 1941, enquanto o Exército Vermelho sofria algumas das piores catástrofes da história militar e os alemães pareciam próximos a derrotar a União Soviética, Joseph Stalin já pensava como seria o reordenamento da Europa depois da Guerra e tentava convencer os aliados da urgência da abertura de uma frente ocidental para reduzir a pressão sobre o território soviético. Ele aproveitou a visita do ministro das Relações Exteriores britânico, Anthony Eden, a Moscou, naquele mês, para propor a assinatura de dois tratados, um de cooperação militar durante a guerra, e outro secreto, sobre o reordenamento das fronteiras na Europa no pós-guerra. As propostas eram bastante modestas se comparadas ao que Stalin acabaria conseguindo em 1945, mas baseavam-se num claro princípio: o de uma nítida divisão de esferas de influência entra as duas grandes potências europeias que não haviam sido ainda derrotadas por Hitler (WAACK, 2008, p. 269, 270).

Quase um ano depois, em agosto de 1942, Stalin recebeu a visita do primeiro-ministro britânico Winston Churchill – seu velho adversário do final dos anos 30, transformado em aliado para derrotar Hitler, o inimigo comum. Durante um jantar, Churchill mencionou a possibilidade de se montar uma liga, que se encarregaria de ordenar o pós-guerra, encabeçada pelas três grandes democracias, entre as quais ele incluía a União Soviética, além dos Estados Unidos e a Grã-Bretanha (WAACK, 2008, p. 270).

Após o ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os Estados Unidos foram obrigados a romper a neutralidade que norteava a política externa isolacionista norteamericana do entreguerras. Após o ataque veio o combate no pacífico durante todo o ano de 1942 e no final desse ano o desembarque das tropas no norte da África.

CONFERÊNCIA DE TEERÃ, NOVEMBRO-DEZEMBRO DE 1943

Os três grandes se encontrariam pela primeira vez na Conferência de Teerã, iniciada a 28 de novembro de 1943. Teerã foi escolhida como local, pois o Irã, naquele momento, acabava de ser desocupado de tropas britânicas e russas, que tinham invadido o país para evitar um governo pró-Eixo (WAACK, 2008, p. 271). Stalin ainda insistia no tema da frente ocidental, já que naquele momento o regime fascista de Mussolini já tinha sido destruído e as forças soviéticas empreendiam a vitoriosa contraofensiva no leste.

Dos americanos, o chefe do Kremlin obteve em Teerã a promessa de que a operação Overlord (Batalha da Normandia), a invasão do continente europeu, acontecereria ainda na primeira metade de 1944, obteve ainda o reconhecimento da autoridade de Josip Broz Tito na Iugoslávia, o acesso soviético ao Mar Báltico pelo porto de Konigsberg e a absorção dos países bálticos, anexados logo depois do acordo entre Moscou e Berlim, em 1939.

Conversando com Churchill, Stalin queria de alguma forma manter os alemães subjugados por duas décadas ou mais, já que o líder soviético acreditava que a Alemanha conseguiria se reerguer em menos de trinta anos. Quanto às fronteiras da Polônia, Stalin disse que estaria contente com a linha Curzon – estabelecida ao final da Primeira Guerra Mundial, e em torno da qual Stalin havia se acertado com Hitler (acordo Germano-Soviético) -, mas que a Polônia seria compensada com parte do território da Alemanha.

A frente ocidental que executou a Operação Overlord só veio em junho de 1944 com o desembarque dos aliados na Normandia. Ficou evidente a linha de Churchill de aguardar o esgotamento das tropas alemãs e soviéticas (MAGNOLI, 2008. p. 84).

As conferências de Yalta e Potsdam reuniram os vencedores da Segunda Guerra Mundial e redefiniram a organização geopolítica do continente europeu.

CONFERÊNCIA DE YALTA, FEVEREIRO DE 1945

O próximo encontro aconteceu em Yalta, um antigo balneário de verão na península da Criméia – depois “presenteada” por Nikita Krushev à Ucrânia, da qual é parte hoje -, recebeu os três grandes em fevereiro de 1945. O que foi, afinal, acertado entre os três grandes? Os países ocidentais concordaram em conceder à União Soviética uma parte substancial da Polônia, deixando a fixação dos limites ocidentais do país (isto é, com a Alemanha) para uma futura conferência de paz e confirmou a anexação dos estados bálticos Estônia, Letônia e Lituânia coincidindo o tamanho do território soviético com o do Império Russo às vésperas da Primeira Guerra (Stalin reafirmava a vocação imperial da “Grande Rússia”).

Da esquerda para a direita: Churchill, Roosevelt e Stalin emYalta. Fonte: http://www.historiasdeleste.com/2009/09/yalta-peninsula-de-crimea-i/

Roosevelt e Stalin compartilhavam a ideia de impor duras condições à Alemanha nazista derrotada. Inicialmente Roosevelt chegou a adotar os postulados do Plano Morgenthau, conhecido pelo nome de seu formulador, o então secretário do Tesouro americano Henry Morgenthau. Esse plano previa que a Alemanha seria privada de suas principais instalações industriais e reduzida ao estado de uma economia agro-pastoril. Depois de Yalta quando ficou claro que seria devastador para a Alemanha, Roosevelt afastou-se desse plano (Ibid. P. 278).

É possível afirmar que nada foi decidido em Yalta que já não tivesse sido acertado em Teerã. O que houve, na verdade, foi uma percepção errada de Yalta, particularmente por parte de Roosevelt. Quando a conferência foi realizada, o comitê de Lublin (governo provisório patrocinado e imposto pelos soviéticos aos poloneses) já estava operando na Polônia. Os territórios que haviam sido cedidos pelo protocolo secretodo acordo Germano-Soviético (Molotov-Ribbentrop) estavam de novo firmemente em mãos soviéticas. Yalta deixou de lado o que realmente era importante – arranjos para a Alemanha do pós-guerra (p. 279).

Por insistência de Churchill, duas semanas antes de morrer Roosevelt escreveu um texto mais duro a Moscou, mencionando sua “ansiedade” com o fato de que a atitude soviética adiante da Polônia significava um perigo não só para a Conferência de São Francisco, na qual se fundaria a ONU, em abril de 1945, mas também para a ordem mundial do pós-guerra. No dia 1 de abril, Roosevelt comunicou a Stalin que a situação polonesa o levava à conclusão de que os acordos de Yalta haviam fracassado.

Yalta assinalou uma esfera de influência soviética, em parte pelo erro de cálculo dos aliados em retardar a abertura da frente ocidental e por isso a União Soviética impôs sua hegemonia sobre os estados do Leste Europeu. Esse foi o preço geopolítico alto pelo erro acontecido no ano de 1943.

Em 12 de abril de 1945, Franklyn Delano Roosevelt morre após longa enfermidade e é substituído pelo vice Harry Truman.

À medida que as tropas dos dois lados aproximavam-se do coração da Alemanha e a derrota final do III Reich era apenas uma questão de dias, talvez semanas, as relações entre Estados Unidos e União Soviética começaram a dar mostras de grande desgaste.

CONFERÊNCIA DE POTSDAM, JULHO-AGOSTO 1945

A Conferência de Potsdam, começada em 17 de julho de 1945, foi o último encontro dos Três Grandes. No mesmo momento em que Stalin chegava a Potsdam, Truman recebia a confirmação de que fora testada com sucesso, no deserto de Alamogordo, a primeira bomba atômica da história.

Vídeo da preparação para a Conferência de Potsdam

Quatro itens faziam parte da agenda inicial de Potsdam. Dois relacionados à criação de instâncias para lidar com problemas do pós-guerra, envolvendo a criação de um conselho de ministros das Relações Exteriores e um Conselho Aliado para controle da Alemanha e outros dois de conteúdo explosivo pela implementação da Declaração de Yalta para os países liberados do Leste da Europa e a reabilitação da Itália na comunidade das nações.

Quando a Segunda Guerra Mundial foi chegando ao final na Europa, Stalin tinha dois grandes objetivos: 1) manter, se possível, a cooperação com os outros dois grandes; 2) levar adiante seus objetivos estratégicos de transformação da Europa Oriental. Ele não via contradições entre esses dois objetivos principais.

Stalin deixou claro que estava empenhado em obter o máximo que pudesse dos países que derrotara, enquanto os Aliados ocidentais, àquela altura, mostravam-se mais preocupados em ver como garantir estabilidade para a Europa. Os soviéticos tinham abocanhado grande parte do leste da Polônia e pretendiam começar essa perda territorial dando aos poloneses uma fatia importante do leste da Alemanha.

O encontro em Potsdam cimentaria as bases da divisão da Europa como a principal característica da ordem internacional para as próximas quatro décadas.

Estados Unidos e União Soviética, segundo Stalin, formavam uma aliança com muita coisa para fazer, enquanto a Grã-Bretanha tinha pouco a oferecer. Truman saiu desse primeiro contato dizendo que achava que poderia se entender com Stalin. Da mesma maneira que seu antecessor, também Truman não enxergava o ditador soviético como um dos monstros morais do século XX.

As conversas mais importantes aconteceram entre os ministros das relações exteriores e Byrnes, chefe da diplomacia americana, teve participação decisiva na formulação das posições americanas em Potsdam. Os americanos cederam à proposta soviética das novas fronteiras da Polônia e da Alemanha e os soviéticos cederam no item reparações (queriam impor uma dura política â Alemanha derrotada), ficando completamente fora da região do vale do Ruhr, na Alemanha.

Foi decidida a divisão provisória da Alemanha em quatro zonas de ocupação militar, administradas pelas potências vencedoras (EUA, Grã-Bretanha, França e União Soviética). Berlim também foi subdividida em quatro setores administrativos subordinados às potências vencedoras.

Imediatamente após Potsdam, para o próprio Stalin já estava claro que não seria possível controlar os territórios conquistados na Europa a não ser pela força. Britânicos e americanos depressa concluíram que não teriam como manter milhões de alemães vivos se à Alemanha não fosse garantida alguma forma de refazer a própria economia. Truman perdeu logo qualquer ilusão que tivesse sobre Stalin, mas também saiu de Potsdam com uma visão ingênua sobre o ditador soviético.

DOUTRINA TRUMAN

Curiosamente, num dos últimos diálogos travados em Potsdam, Truman e Byrnes perguntaram ao chfe do Kremlin se uma linha que dividisse a Europa em duas metades seria traçada do Báltico ao Adriático, e Stalin respondeu que sim. Era o prenúncio da Doutrina Truman, enunciada no início de 1947, e que assinalou a transição para a Guerra Fria.

Em março de 1946 Churchill profere o discurso de Fulton e cita a criação de uma Cortina de Ferro na Europa, desde Stelin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, onde do lado leste os povos estavam sob o controle de Moscou. Seu discurso serviu como alerta para o abandono de cooperação entre os Três Grandes.

O discurso de Fulton foi reforçado pelas notas diplomáticas do conselheiro da embaixada americana George Frost Kennan que usava o condinome Mr. X que descreviam a política externa de Moscou como expansionista e que era preciso conter essas ideias soviéticas para, a longo prazo, fragilizar e conduzir o regime ao colapso.

Nítidamente inspirado nas ideias de Mr. X, o presidente norteamericano Harry Truman discursa em março de 1947 sobre a sustentação dos governos da Grécia e Turquia que passavam por sérios problemas econômicos. O que ficou conhecido como Doutrina Trumanfoi uma reviravolta na política de isolacionismo americano, pois a nova orientação transferia a Europa para o centro da política externa norteamericana e definia a contenção do expansionismo soviético como o eixo da estratégia de Washington.

Devido aos problemas econômicos e sociais do pós-guerra, o aprofundamento da Doutrina Truman se deu através do Plano Marshall, uma ajuda em julho de 1947 para a reconstrução econômica dos estados da Europa Ocidental, através de transferência de US$ 13 bilhões (aproximadamente US$ 150 bilhões hoje) feita pelos Estados Unidos. A condição imposta por Washington era que o programa fosse articulado por organismos que não obedecessem a uma única nação, assim como uma configuração precursora  de bloco econômico e político europeu.

O Plano Marshall também foi proposto para os países de influência soviética, mas  Stalin recusou e proibiu os países do Leste Europeu de receberem a ajuda financeira, pois achou que esse era um programa dos EUA para interferir na soberania soviética. Apenas a Iugoslávia de Josif Broz Tito ao romper com a União Soviética pelo seu nacionalismo usou essa ruptura com Stalin para receber ajuda norteamericana do Plano Marshall.

Artigo Potsdam adaptado de WAACK, 2008, p. 285-294.

Referências

MAGNOLI, Demétrio. O Mundo Contemporâneo. São Paulo: Atual, 2008.

WAACK, Willian. Conferências de Yalta e Potsdam (1945). In: MAGNOLI, Demétrio (org.). História da Paz. São Paulo: Contexto, 2008.

9 thoughts on “Conferências de Teerã, Yalta e Potsdam / Doutrina Truman e Plano Marshall

    • Muito obrigado Durval. Apesar de (tentar) ser isento nos textos, sob a premissa de torná-los científicos e de credibilidade, tomo muito cuidado não só com Waack, mas com Magnoli também.

  1. Durante a segunda guerra mundial,muitos países lutaram junto aos aliados, inclusive o Brasil.No entanto,Churchill menciona apenas três grandes potencias vitoriosas que foram EUA,URSS e Inglaterra .Porque apenas essas potencias foram destacadas?

    Obrigada! ótimo site :D

    • Obrigado Karini!
      Quanto à resposta, porque essas foram as potências consideradas “Três Grandes” e foram as únicas que participaram das conferências de reterritorialização da Europa.

  2. Proff, porque churchill tinha como objetivo esgotar as tropas alemãs e soviéticas com a abertura da frente ocidental, sendo que Inglaterra e URSS eram aliados? E em que momento a estratégia dele falhou?

    • Rafaela,
      O que Churchill queria era entrar com as tropas inglesas depois do esgotamento das tropas russas, pois aí ficaria com os louros de ter vencido a guerra, mas a estratégia se mostrou errônea porque os russos venceram as tropas alemãs sem precisar da ajuda dos ingleses.

Deixe uma resposta