Diário (Teórico) de Bordo: Pantanal e Serra da Bodoquena/MS

Por Marcos Bau Brandão


Entre os dias 29 de junho e 5 de julho de 2012, aconteceu uma das viagens pedagógicas feitas pelo Centro Educacional Sigma/DF. Viagem esta para o Mato Grosso do Sul partindo da Capital Campo Grande, em visitação ao Pantanal na altura do município de Miranda e Serra da Bodoquena, entre os municípios de Bonito e Jardim. Este escrito está dividido em duas partes: a primeira com abordagens geográfico-teóricas dividida em ‘Pantanal Matogrossense’ e ‘Serra da Bodoquena’ e a segunda, uma mera descrição das atividades que foram intituladas ‘O Diário de Bordo’.

Toda a organização da viagem e dos aparelhos turísticos ficou sob a responsabilidade da http://www.bonitoeobicho.com.br

Pantanal Matogrossense

O Pantanal é uma planície aluvial composta em sua maioria por rios que drenam a bacia do alto Paraguai (são ao todo 175 rios), com sedimentação a partir do Período Quaternário da Era Cenozoica (cerca de 20 milhões de anos atrás, bacia sedimentar mais jovem do território brasileiro). É uma área predominantemente plana, com declividade de 6 a 12 cm/km no sentido leste-oeste e de 1 a 2 cm/km no sentido norte-sul, com altitudes de no máximo 150 metros acima do nível do mar. Em todo o seu território, o Pantanal perfaz aproximadamente 210 mil km² abangendo pedaços no Paraguai, Bolívia e Brasil. Mais de 140 mil km² do Pantanal está em território brasileiro entre os Estados do Mato Grosso (35% da parte nacional pantaneira) e Mato Grosso do Sul (65% da parte nacional pantaneira), onde a maior parte de sua área (aprox. 100 mil km²) é passível de alagamento. Está cercado ao norte pelas Serras dos Parecis, Azul e do Roncador; a leste, no Planalto Central, com a Serra de Maracajú, ao sul pela Serra da Bodoquena e a oeste pelos chacos paraguaio e boliviano.

O clima é quente e chuvoso no verão e ameno e seco no inverno. A precipitação anual assemelha-se à Brasília, com uma média de 1.300 mm, concentrada entre os meses de dezembro a março. A condição climática determina a exuberância vegetal que por sua vez influencia na biodiversidade. Os ecossistemas que compõem a planície são caracterizados pela presença de florestas e cerradões sem alagamento periódico, campos inundáveis e ambientes aquáticos.

O Pantanal é considerado um mosaico de biomas por possuir estratos vegetais de floresta, cerrado, caatinga e campos sulinos (pampa). Na foto acima nota-se os três estratos do porte vegetal, desde o mais rasteiro (herbáceo) de vegetais hidrófilos como nos campos de pradarias, passando por um degrau de arbustos (porte arbustivo) até chegar à vegetação mais densa (arbórea) que se assemelha às florestas e ao cerradão do Centro-Oeste. Foto de Marcos Bau em jun 2012.

No que se destaca da biodiversidade, tem-se um população de quase 4 milhões de jacarés, cerca de 650 espécies de aves, 95 de mamíferos, 260 de peixes e 50 de répteis, sendo importante refúgio para algumas populações de animais ameaçados de extinção como a onça-pintada (Panthera onca), o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), o tamanduá bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a arara azul (Anodorhynchus hyacinthinus).

Araras na foto de Ana Luisa Braun, jun 2012.

 A atividade econômica mais difundida é a pecuária, onde o gado bovino é encontrado em toda as regiões. Seu rebanho está na ordem de mais de dez milhões de cabeças para todo o Pantanal, somado a alguns milhares de búfalos que foram introduzidos na região. O desmatamento perfaz a ordem de 17% do bioma, principalmente nas áreas da faixa de transição por serem áreas não suscetíveis ao alagamento (o centro do bioma é mais preservado por concentrar as áreas de alagamento anual, que de certa maneira favorece a permanência de cobertura vegetal natural).

Tamanduá Bandeira na Faz. San Francisco/MS – Uma das espécies em extinção da fauna brasileira.

Serra da Bodoquena – Entre os Municípios de Bonito e Jardim

A Serra/Planalto da Bodoquena se estende por 400 quilômetros de Norte a Sul dentro do Estado do Mato Grosso do Sul e sua maior largura está na latitude de Bonito, com 40 quilômetros (veja figura que segue). Situa-se ao sul do Pantanal Matogrossense e sua maior altitude chega a 700 metros acima do nível do mar, mas a média de altitude em sua totalidade fica entre 300 e 400 metros acima do nível do mar.

A formação geológica é de estrutura bastante antiga e datada da era Pré-Cambriana, com rochas cratônicas datadas entre 2 e 3 bilhões de anos. Movimentos tectônicos no Brasil entre 540 e 500 milhões de anos atrás (chamados de ciclo Brasiliano III ao final da Era Pré-Cambriana) contribuiram para o soerguimento do planalto da Bodoquena, e por fim, entre 10 e 6 milhões de anos atrás (Período Terciário da Era Cenozoica), também sofreu influência do dobramento moderno que formou a Cordilheira dos Andes (conforme cientistas, o levantamento da cordilheira foi de cerca de quatro mil metros em menos de quatro milhões de anos – fonte: Portal Terra, 2008).

A sedimentação do calcário que cobre a estrutura cratônica começou ao final da Era Pré-Cambriana, entre 570 e 550 milhões de anos atrás, quando ali se abriu um oceano que proliferou microorganismos e algas que proporcionaram intensa sedimentação carbonática (calcário, mármore e rochas dolomíticas que são compostas por carbonato de cálcio e magnésio). O desgaste químico se inicia pela combinação da água da chuva ou de rios superficiais com o dióxido de carbono (CO2) proveniente da atmosfera ou do solo (raízes da vegetação e matéria orgânica em decomposição) que na Serra da Bodoquena, junto ao transporte erosivo depositou grande quantidade desses sedimentos que se transformaram em rocha calcária, com escarpa (corte abrupto no planalto, penhasco) voltada para o Pantanal, geograficamente situado a oeste.

Vista perfilática de parte da Serra da Bodoquena/MS, na altura do município de Miranda. Foto de Marcos Bau em jul 2012.

A erosão nesse tipo de rocha (calcário) forma um relevo denominado cárstico que significa a dissolução química (corrosão, intemperismo) das rochas pela grande pluviosidade (água com pH ácido), com formação de cavernas que ao atingir a zona freática pode formar rios subterrâneos abrindo cavidades na rocha. À medida que a água penetra e dissolve a rocha, o carbonato de cálcio de dissolve e torna o pH da água cada vez mais alcalino, fazendo os sedimentos se precipitarem rapidamente e favorecendo a formação de espeleotemas* no interior das cavernas, além de manter as águas sempre límpidas, por causa da grande concentração de calcita (mineral principal dos mármores e calcários). O exemplo de ilustração desse parágrafo, quanto às cavernas, é a Gruta do Lago Azul em Bonito/MS e também serve quanto aos rios da região que são contornados por tufas calcárias que continuam em crescimento, na forma de cachoeiras e represas naturais ao longo das drenagens.

Tufas calcárias do rio Mimoso em meio à trilha da Estância Mimosa, por dentro da vegetação predominantemente arbórea do cerradão, no município de Bonito/MS. Foto de Marcos Bau em jul 2012.

*Espeleotemas são formações de rocha calcária (também mármore e rochas compostas por carbonato de cálcio e magnésio) que ocorrem tipicamente no interior de cavernas como resultado da sedimentação e cristalização de minerais dissolvidos na água. Os tipos mais comuns de espeleotemas são as estalactites e estalagmites.

Estalactites e água cristalina na Gruta do Lago Azul em Bonito/MS. A extensão do lago é de 80 metros e a profundidade é de 40 metros. Se retirada desse ambiente, a água será incolor, mas a coloração “azul” se dá devido à refração de cores que se decompõem no que se chama espectro (veja explicação aqui). Foto de Cícero Tomaz em jan. 2012.

No final da era Cenozoica, entre as épocas do Plioceno e o fim do Pleistoceno (entre 5,2 milhões e 10 mil anos atrás) viveram uma série de mamíferos de grande porte na Serra da Bodoquena, que também envolve o período de acontecimento das glaciações iniciadas há cerca de 1,6 milhões de anos e encerrada há 10 mil anos. Em 1992, mergulhadores encontraram fósseis de uma preguiça gigante no fundo da Gruta do Lago Azul, contribuindo para comprovar que a região já abrigou espécies que existiam no período pleistoceno (entre 2 milhões e 588 milhões de anos atrás). Muitos desses animais morreram e foram carregados pelos rios e pelas enchurradas e enchentes até as cavernas e abismos, onde seus fósseis são frequentemente encontrados. Isso contribuiu para que nos dias de hoje as pesquisas arqueológicas nos dessem pistas de como viviam os animais da época.

 O Diário de Bordo

A equipe na ordem esq./dir. – Klênia (orientadora pedagógica); Cícero (Guia de Turismo); Ton (prof./Coord. de Inglês); Marcos Bau (prof. Geografia); Saulo (prof. Biologia); Renata Uchôa (Guia de Turismo).

Breve descrição das atividades durante a viagem. Os locais de visitação estão linkados com álbuns de fotos tiradas pelos alunos e por Cícero Tomaz, nosso guia turístico da região. Ao final está postada uma galeria de fotos tiradas pelo prof. Marcos Bau.

Saímos do aeroporto de Brasília por volta de 22h do dia 29 de junho e depois do desembarque chegamos ao ônibus em Campo Grande por volta de 1h do dia 30 de junho. Viajamos por via terrestre até a Fazenda San Francisco no município pantaneiro de  Miranda e chegamos por volta das 7h da manhã.

Na sequência de fotos, (1) a fila para o embarque no Aeroporto de Brasília, (2) check out no aeroporto de Campo Grande.

O café do hotel fazenda estava servido com comidas típicas pantaneiras. Daí seguimos por uma trilha até o rio Miranda para andar de chalana no ‘corixo’ (trecho/canal alagado) São Domingos, onde vimos alguns dos animais da fauna pantaneira e pescamos piranhas para alimentar os jacarés e perceber como eles são rápidos quando atacam suas presas.

Andando pela trilha até embarcar na chalana.

Depois do almoço uma palestra sobre o projeto Gadonça, que defende a onça pintada contra a extinção, principalmente a partir da caça do animal.

A palestra do Gadonça.

Depois do Gadonça um safári pela fazenda para a observação da fauna no interior da vegetação entre plantações de arroz e áreas de pecuária extensiva. O cansaço nos fez dormir por volta de 21h, pois no dia posterior (2º dia, 1 de julho) teríamos que acordar às 4h30 da manhã para entrar no ônibus e viajar até a Fazenda Mimosa, no município de Bonito que está fora do Pantanal e já faz parte da região composta pela Serra da Bodoquena.

O safari na foto de Duda Burlamaqui.

Chegamos à Fazenda Mimosa por volta de 10h30min – fizemos um lanche – e nos preparamos em grupos de 10 pessoas para andar na trilha por dentro da vegetação do cerradão e verificar a formação das tufas calcárias nos córregos da região que em alguns pontos permite o banho em águas bastante frias (em torno de 15ºC) de algumas das oito cachoeiras que passamos. O passeio durou cerca de 3h e voltamos para o almoço (destaque para a ótima/bem temperada comida) às 15h.

A trilha e o banho na Faz. Mimosa/MS.

Saindo da Mimosa no meio da tarde, ainda deu tempo para o rafting que durou aproximadamente 1h30min e teve seu final no início da noite. Daí seguimos para a cidade de Bonito e fizemos o check in no hotel. Jantamos e ficamos pelo hotel durante a noite, pois – para o 3º dia de atividades – acordaríamos às 5h30min para conhecer a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) que atende a toda cidade, assim como o processo de separação do lixo para reciclagem. A visita à ETE Bonito teve como anfitrião e palestrante, o Secretário de Meio Ambiente de Bonito, o Sr. Edmundo P. Dineli da Costa Junior.

A visita à Estação de Tratamento de Esgoto em Bonito/MS. Foto de Bonito é o Bicho Viagens e Turismo.

Depois do almoço partimos para a Gruta do Lago Azul, o destino turístico mais famoso de Bonito/MS. Chegamos por volta de 15h e nos dividimos em 5 grupos para descer a gruta devido à capacidade de carga do local. A visitação durou cerca de três horas. Às 18h entramos no ônibus para voltar ao hotel.

Gruta do Lago Azul – Clique na imagem para ir ao álbum da Bonito é o Bicho no Facebook.

A noite visitamos o projeto jibóia, onde o responsável Henrique cria algumas cobras e fez uma palestra para desmistificar a ideia de que as sertpentes são ameaçadoras ao homem (conforme o palestrante, as sepentes só atacam para se defender da ameaçadora presença humana). Enfim, todos com medo ou não tiraram foto com a jibóia de estimação de Henrique. Ao final fomos a uma pizzaria, e depois de 20 pizzas, uma breve andada pelo centro da cidade de Bonito. De volta ao ônibus, pois já passava da 1h da manhã, hora de dormir no hotel.

A aluna Sophia com a cobra de estimação do projeto jibóia. Clique na imagem para abrir álbum com várias outras fotos.

No 4º e último dia de atividades, acordamos às 7h e fomos para a flutuação no Rio da Prata, município de Jardim. Chegando ao local nos preparamos vestindo a roupa de neoprene, descemos de camionete até uma trilha de quase 2km, onde andamos até a margem do rio, para flutuar em sua correnteza de águas completamente transparentes. Um passeio fascinante de 3h observando as variadas espécies da vida subaquática.

O fundo do Rio da Prata. Clique nas imagens para abrir álbum no Facebook com várias outras fotos.

Ao final da flutuação, do município de Jardim partimos para a Capital, pois o avião de volta sairia do Aeroporto Internacional de Campo Grande às 9h30min do 5º dia (em que a atividade se resumia na volta para casa/BSB), com conexão em Cuiabá e chegada em Brasília às 15h15min. Ainda deu tempo de passar 20min no Mercadão Municipal de Campo Grande para comprar souvenirs…

Banca de souvenirs no Mercadão Municipal.

Enfim, chegamos e correu tudo bem… Os alunos até falaram que já estão prontos para uma próxima…

Avião que nos trouxe de Cuiabá para Brasília.

Referências

ABDON, Myrian (et all.). Desmatamento no bioma Pantanal até o ano de 2002: relações com a fitofisionomiae limites municipais. Revista de Cartografia. nº 59, abr. 2007.

AB´SÁBER, Aziz. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

HASUI, Yociteru. A grande colisão pré-cambriana do Sudeste brasileiro e a estruturaçaõ regional. Geociências. UNESP, 2010.

MAURO, R. Estudos faunísticos na Embrapa Pantanal. Arch. Zootec., 2002.

ROSS, Jurandir Luciano Sanches (org.). Geografia do Brasil. 5.ed. São Paulo: EDUSP, 2005.

Site da Fazenda San Francisco em <http://www.fazendasanfrancisco.tur.br/pantanal/index.php>

Site da Estância Mimosa em <http://estanciamimosa.com.br/bonito/>

VON BEHR, Miguel. Serra da Bodoquena: história, cultura, natureza. MS: Editora Free, 2001.

Abaixo segue galeria de mais algumas fotos

9 thoughts on “Diário (Teórico) de Bordo: Pantanal e Serra da Bodoquena/MS

  1. Bau, como eu gostaria que os meus meninos estivessem nesta turma. Não tem preço poder proporcionar uma viagem dessas com um professor tão especial.Um bjão meu querido.

    • Obrigado e seria o maior prazer acompanhar seus dois filhotes academicamente! Se resolver mudar para Brasília, estamos a postos…
      Beijo grande!

    • Obrigado Titi (Renata Uchôa)! Foi o maior prazer conhecê-la e partilhar da grande competência em organizar os alunos para as atividades durante essa viagem.
      Até a próxima! Beijos!

  2. Professor, queria agradecer por ter ido com a gente nessa viagem, sua presença nos passeios foi extremamente enriquecedora, ver a Geografia na prática mudou completamente o meu ponto de vista sob ela… O Diário de Bordo ficou ótimo! Parabéns. :] ps: fiquei super lisongeada por você ter usado minha foto do safári! hahaha

    • Duda,
      Obrigado pelas palavras! Para mim foi (e é) um grande prazer acompanhar vocês do corpo discente e mostrar no campo/ao vivo o que estudam nos livros.
      Parabéns pela foto do safári! Ficou muito bacana 🙂

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