As promessas e os riscos do etanol

O Brasil, l√≠der mundial na produ√ß√£o desse combust√≠vel, vai lucrar com as a√ß√Ķes dos pa√≠ses desenvolvidos para substituir a frota a gasolina por motores flex. Mas, nesse e em outros setores do agroneg√≥cio, a expans√£o sem planejamento pode trazer danos ao meio ambiente.

O agroneg√≥cio brasileiro teve mo¬≠tivos para comemorar em 2007. Preocupadas como aquecimento global e a proximidade da exaust√£o das reservas mundiais de petr√≥leo, as na√ß√Ķes desenvolvidas aceleraram a√ß√Ķes para substituir os combust√≠veis produzidos com mat√©ria-prima f√≥ssil por biocom¬≠bust√≠veis, de origem vegetal (veja figura que segue). Trocando em mi√ļdos, elas come√ßaram a estabelecer prazos para trocar gasolina e √≥leo diesel por √°lcool combust√≠vel, o etanol.

A not√≠cia √© boa para os agricultores nacionais porque o Brasil √© o maior pro¬≠dutor do melhor etanol que existe, o de cana-de-a√ß√ļcar – ele √© mais potente, mais barato, emite menos poluentes e utiliza um vegetal que n√£o est√° entre aqueles considerados fundamentais na produ¬≠√ß√£o de alimentos. Os Estados Unidos, por exemplo, usam o etanol de milho, o que √© um problema, j√° que o gr√£o √© um dos mais importantes itens da ind√ļstria aliment√≠cia norte-americana.

Al√©m disso, o Brasil tem larga experi√™n¬≠cia no assunto e, por isso, sai na frente dos concorrentes. A cana-de-a√ß√ļcar √© conhe¬≠cida dos nossos produtores h√° quase 500 anos, e h√° tr√™s d√©cadas dominamos a tecno¬≠logia de produ√ß√£o de √°lcool combust√≠vel. J√° tivemos mais de 90% da frota de ve√≠culos movida a √°lcool, e hoje o etanol respon¬≠de por 40% do combust√≠vel automotivo consumido no pa√≠s. Nesse quesito, com exce√ß√£o dos Estados Unidos, as grandes pot√™ncias est√£o apenas engatinhando.

Liderança mundial

Dessa forma, a ado√ß√£o de um biocom¬≠bust√≠vel como o √°lcool em escala inter¬≠nacional traria benef√≠cios econ√īmicos ao Brasil. No entanto, √© preciso encarar a quest√£o tamb√©m em seus aspectos negati¬≠vos, embora o que transpare√ßa √† primeira vista seja o excelente neg√≥cio que o setor representa para os produtores brasileiros. Esses ganhos podem vir acompanhados de terr√≠veis preju√≠zos sociais e ambientais, se n√£o forem tomadas as medidas necess√°rias para evitar o pior.

O principal aspecto a observar √© que a √°rea de produ√ß√£o de cana-de-a√ß√ļcar no pa√≠s est√° crescendo a cada dia. Em 2007 houve amplia√ß√£o de 12,53%, gra√ßas √†s novas frentes de plantio e √† substitui√ß√£o de lavouras pelos produtores. Ao mesmo tem¬≠po, o governo federal cria incentivos fiscais e subs√≠dios para estimular o setor.

Em 2007, o Brasil produziu 21,34 bilh√Ķes de litros de etanol (um recorde, 14% mais do que no ano anterior) e assumiu a lideran√ßa mundial no fabrico do produto. Todo esse volume, que supre quase metade do con¬≠sumo anual de combust√≠vel do pa√≠s, daria conta de apenas 5% do que √© gasto pelos carros norte-americanos – e os Estados Unidos j√° definiram uma redu√ß√£o de 20% no consumo da gasolina para os pr√≥ximos dez anos. Hoje, para abastecer somente 5% do mercado mundial de √°lcool combust√≠vel, o Brasil precisaria aumentar sua produ√ß√£o quatro vezes, atingindo 100 bilh√Ķes de li¬≠tros por ano. Nesse caso, a riqueza direta produzida alcan√ßaria 30 bilh√Ķes de d√≥lares ao ano e, em conseq√ľ√™ncia, seriam criados mais de 5 milh√Ķes de empregos.

Pensando nessa nova perspectiva eco¬≠n√īmica, em mar√ßo de 2007, o Brasil e os Estados Unidos assinaram um acordo de coopera√ß√£o sobre etanol. Os dois produzem, juntos, 70% do √°lcool combust√≠vel do mundo e, por isso, assumiram, pelo acordo, a coorde¬≠na√ß√£o dos estudos para estabelecer padr√Ķes internacionais para os biocombust√≠veis.

Negócios em expansão

Hoje, o agronegócio é responsável por grande parte da economia nacional, e não compreende só pecuária e agricultura, mas também a cadeia produtiva formada pelos demais setores ligados a essas atividades: produção de equipamentos e serviços (insu­mos) para a zona rural e a transformação de matérias-primas, como fábricas de alimen­tos industrializados e frigoríficos.

Assim, a cadeia come√ßa nas f√°bricas, seja de tratores, seja de adubos, ou nas ind√ļs¬≠trias de ra√ß√£o animal. Em seguida, est√£o

a planta√ß√£o ou a cria√ß√£o de animais em si, que √© o centro do neg√≥cio todo. Por fim, √© a vez das atividades de p√≥s-produ√ß√£o, como a ind√ļstria de caf√© sol√ļvel, que compra os gr√£os e os industrializa, ou as usinas, que transformam o caldo da cana em a√ß√ļcar ou √°lcool. Esse conjunto faz do agroneg√≥cio uma das bases da economia nacional.

30% do PIB

Hoje, a agricultura e a pecu√°ria fazem o pa√≠s produzir riquezas ao criar empregos e trazer d√≥lares com exporta√ß√Ķes cada vez maiores. A atividade participa de cerca de 30% do Produto Interno Bruto (PIB), 37% das exporta√ß√Ķes e 35% dos empregos brasileiros. Em 2007, o PIB do setor foi de 570 bilh√Ķes de reais, um aumento anual de 5,5%, e as exporta√ß√Ķes chegaram a 58 bilh√Ķes de d√≥lares no ano, ou 18,2% mais do que em 2006. O setor tem sido o res¬≠pons√°vel por grande parte do resultado positivo da balan√ßa comercial brasileira – que √© a receita das exporta√ß√Ķes, tirando disso o gasto com as importa√ß√Ķes. Em 2007, o resultado positivo do agroneg√≥cio supera o do conjunto da economia brasileira (veja gr√°fico), o que significa que outros setores foram deficit√°rios.

O Brasil est√° entre os l√≠deres mundiais no mercado de diversos produtos agropecu¬≠√°rios. √Č o primeiro produtor e exportador de caf√©, a√ß√ļcar, √°lcool e sucos de frutas. Tamb√©m vence o ranking das vendas exter¬≠nas de soja, carne bovina, carne de frango, tabaco, couro e cal√ßados de couro. Al√©m disso, analistas prev√™em que o pa√≠s ser√°, em breve, o principal produtor de algod√£o. Em 2007 assumiu a primeira coloca√ß√£o na fabrica√ß√£o de biocombust√≠veis.

O agroneg√≥cio est√° se modernizando, ficando mais eficiente e competitivo (veja gr√°fico que segue). As condi√ß√Ķes geogr√°ficas e o clima ajudam o Brasil: as chuvas s√£o regulares, faz bastante sol e h√° √°gua para irriga√ß√£o. As estimativas s√£o que nosso territ√≥rio tenha 388 milh√Ķes de hectares de terras agricult√°veis de boa produtividade, dos quais 90 milh√Ķes inex¬≠plorados. O pa√≠s √© um dos poucos onde se planta e se criam animais em √°reas tempera¬≠das e tropicais. Por causa das boas condi√ß√Ķes, a agricultura brasileira pode obter at√© duas safras de gr√£os por ano. A pecu√°ria tem espa¬≠√ßo para ser implementada desde os campos do Sul at√© o Pantanal Mato-Grossense.

Com a ajuda desses fatores, o Brasil foi um dos pa√≠ses que mais cresceram no agroneg√≥cio nas √ļltimas d√©cadas. Em 1990, as exporta√ß√Ķes do setor foram de 13 bilh√Ķes de d√≥lares. Em menos de 20 anos, esse valor mais que quadruplicou, che¬≠gando em 2007 a 58 bilh√Ķes de d√≥lares. Esses resultados levaram a Confer√™ncia das Na√ß√Ķes Unidas sobre Com√©rcio e Desenvolvimento (Unctad) a prever que o pa√≠s ser√° o maior produtor mundial de alimentos na pr√≥xima d√©cada.

A evolu√ß√£o da √°rea agr√≠cola rural deve muito √†s pesquisas cient√≠ficas, que ajudam a aumentar a produtividade (produ√ß√£o maior numa mesma √°rea), com novas sementes. Os estudos nessa √°rea, feitos, sobretudo, pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agro¬≠pecu√°ria (Embrapa), desenvolveu 529 va¬≠riedades de vegetais adaptadas a cada clima e solo nas principais regi√Ķes produtoras. Tamb√©m foram empregadas t√©cnicas mais avan√ßadas e ambientalmente corretas para o plantio, al√©m de ser realizada a recupe¬≠ra√ß√£o de √°reas degradadas de pastagens e outras culturas.

Desmatamento

O crescimento do agroneg√≥cio leva o pa√≠s a buscar novas √°reas. As principais s√£o a franja sul da Amaz√īnia, o sul do Maranh√£o e do Piau√≠ e o oeste da Bahia Nas √ļltimas d√©cadas houve importante migra√ß√£o do Centro-Sul e do Nordeste para o Centro-Oeste e a Amaz√īnia, numa faixa que se estende do Acre, a oeste, ao sul do Par√°, a leste.

As serrarias e o setor pecu√°rio est√£o movimentando a economia da Amaz√īnia O cultivo da soja se expande no cerrado, e ao longo do rio Madeira cresce o de gr√£os. A amplia√ß√£o das fronteiras agro¬≠pecu√°rias, por√©m, vem provocando uma devasta√ß√£o ambiental descontrolada, com desmatamentos e queimadas que des¬≠troem a floresta. Estudo da ONU chamou aten√ß√£o do Brasil, em janeiro de 2008, sobre a necessidade urgente de frear o ritmo do corte das √°rvores da Amaz√īnia.

O agroneg√≥cio provocou profundas mu¬≠dan√ßas no campo brasileiro, produzindo riquezas, mas tamb√©m problemas ainda n√£o resolvidos. Um √© o impacto ambiental, sobretudo na regi√£o de cerrado e na floresta Amaz√īnica. Outro, social, √© a perman√™ncia da concentra√ß√£o de renda e terras nas m√£os de poucos, causando conflitos.

Estrelas do agronegócio

O setor sucroalcooleiro movimenta 20 bilh√Ķes de d√≥lares, e o Bra¬≠sil √© o maior e mais importante produtor mundial de a√ß√ļcar e √°lcool. Em 12 anos, as exporta√ß√Ķes dos dois itens aumentaram tr√™s vezes, atingindo em 2007 quase 19 milh√Ķes de toneladas, que representaram 6,5 bilh√Ķes de d√≥lares em divisas, segundo dados da Carteira de Com√©rcio Exterior do Banco do Brasil (Cacex). A produ√ß√£o brasileira de cana-de-a√ß√ļcar na safra 2006/2007 √© estimada em 475,7 milh√Ķes de toneladas, alta de 10,3% em rela√ß√£o √† anterior.

A soja √© o principal gr√£o do agrone¬≠g√≥cio brasileiro e um produto importante na pauta agr√≠cola brasileira h√° cerca de 30 anos. Sua import√Ęncia est√° no papel que tem na ind√ļstria internacional de alimenta√ß√£o e na pecu√°ria. Al√©m de ser mat√©ria-prima de in√ļmeros itens no card√°pio dos povos, √© o principal produto para a fabrica√ß√£o de ra√ß√£o animal; em breve, ser√° utilizada na industrializa√ß√£o de √≥leo biodiesel.

Nos √ļltimos dez anos, o faturamento do Brasil com as exporta√ß√Ķes de soja dobrou, atingindo 11,3 bilh√Ķes de d√≥lares em 2007. O pa√≠s √© o segundo maior produtor mun¬≠dial, atr√°s dos Estados Unidos. Em 2005, os norte-americanos produziram 86 milh√Ķes de toneladas (40% da produ√ß√£o global), e o Brasil, 58 milh√Ķes (veja gr√°fico evolutivo da soja na Amaz√īnia). A √°rea plantada no pa√≠s cresceu 70% desde 2000, chegando a 20,7 milh√Ķes de hectares em 2007, segundo dados do Minist√©rio da Agricultura.

O café é um símbolo do Brasil no exterior desde o século XIX, e a fama tem sua razão. O país é o maior produtor mundial e exporta para centros importantes, como Alemanha, Estados Unidos, Itália e Japão.

A √°rea cultivada no Brasil √© de 2,3 milh√Ķes de hectares e est√° crescendo. A produ√ß√£o estimada para a safra 2007/2008 √© de 33,7 milh√Ķes de sacas de caf√© beneficiado (2,02 milh√Ķes de toneladas). O n√ļmero representa um recuo de 20,6% sobre os 42,5 milh√Ķes de sacas da colheita anterior, mas, de acordo com a Companhia Nacional de Abasteci¬≠mento (Conab), a redu√ß√£o √© parte da sa¬≠zonalidade natural do caf√©, que apresenta diferen√ßas em rela√ß√£o √† colheita de outros gr√£os. Em termos de faturamento, os ga¬≠nhos com a exporta√ß√£o de caf√© t√™m crescido continuamente. Em 2007, as exporta√ß√Ķes chegaram a 3,9 bilh√Ķes de d√≥lares, um au¬≠mento de 17% sobre o ano anterior. Minas Gerais √© o maior produtor nacional, com 49,5% das √°reas de plantio do pa√≠s, seguido por Esp√≠rito Santo (21%), S√£o Paulo (9%), Rond√īnia (7%) e Paran√° (4,6%).

Em dez anos, a exporta√ß√£o de carne bovina congelada do Brasil, o maior produtor mundial, aumentou quase 12 vezes, chegando a 3,1 bilh√Ķes de d√≥lares em 2007. Os principais destinos foram Federa√ß√£o Russa, Egito, Ir√£ e Arg√©lia No mesmo per√≠¬≠odo, o pa√≠s deu um grande salto nas vendas externas de carne de porco, que atingiram 1,1 bilh√£o de d√≥lares em 2005 – cujos principais destinos foram a Federa√ß√£o Russa, Hong Kong; Argentina, Cingapura e Uruguai.

As exporta√ß√Ķes de carne de frango ti¬≠veram aumento recorde para um √ļnico ano. De 2006 a 2007, o incremento foi de 54,85% – de 3,2 bilh√Ķes para 4,97 bilh√Ķes de d√≥lares. O valor √© seis vezes maior que os 805 milh√Ķes de d√≥lares do ano 2000. Os maiores compradores foram Jap√£o, Ar√°bia Saudita, Holanda e Alemanha.

Fonte: Guia do Estudante. Atualidades Vestibular, 2008, p. 112.

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