Inflação, Planos e Moedas: Saga Brasileira


Este escrito foi adaptado como síntese do livro de LEITÃO, Miriam. Saga Brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda. São Paulo: Record, 2011.

Por Marcos Brandão

Se puder dar um conselho, digo-lhes que antes da leitura vale muito assistir o vídeo abaixo, onde a própria Miriam Leitão fala sobre o porque de resolver escrever nossa história monetária como saga brasileira, com enfoque para o período da redemocratização à estabilização da nossa moeda.

A autora leu essa síntese e escreveu o comentário acima no twitter.

Desde a época de D. João VI o governo cunhava moedas para financiar os gastos da corte gerando inflação. O gasto com conflitos de independência também contribuíram.

O primeiro ministro da fazenda, Rui Barbosa, permitiu o aumento descontrolado da emissão de moeda com uma política chamada encilhamento (crédito livre e sem lastro para desenvolver a indústria). O crescimento do trabalho assalariado aumentava em muito o dinheiro em circulação.

A quantidade de dinheiro circulante gerou uma bolha* que estourou em crise causando falências e altíssima inflação, pois a lógica que eles usavam era a de que basta imprimir dinheiro que a riqueza da recém proclamada república estava garantida.

*Bolha significa o aumento da especulação quando a emissão e quantidade de dinheiro circulante é muito maior do que o normal, pois com isso os preços tendem a subir cada vez mais aumentando a inflação e a moeda enfraquece pela grande oferta no mercado (para tanto, a bolha estoura devido à inflação muito alta, associada a uma moeda maxidesvalorizada). O mesmo acontece atualmente com as bolsas de valores: as sucessivas altas nos títulos fazem pessoas que são amadoras no processo investirem cada vez mais inflando artificialmente a ‘bolha’. Quando os verdadeiros investidores percebem que os preços estão irreais vendem suas ações – que logo caem os preços – estourando a bolha especulativa.

A contenção dessa bolha inflacionária veio no período do ministro Joaquim Murtinho, no governo Campos Sales (1898-1902), quando cortou o déficit orçamentário e reduziu o direito do governo de emitir moeda. A inflação caiu para uma média de 15% ao ano e houve forte crescimento (admite-se que a medição dos índices era completamente tosca nessa época).

O pós crise de 1929 faz a revolução de 1930 construir um novo país sob a crise externa do café. A ideia de Getúlio Vargas era a de um Brasil cada vez mais urbano e industrial, e com o crescimento do mercado interno, os índices de inflação chegam a patamares de 20% ao ano na década de 1940.

Até 1942 a moeda brasileira era o mil-réis, quando foi implantado o cruzeiro mostrado na figura que segue.

Tiradentes na nota de 5.000 Cruzeiros (Cr$ 5.000,00). Essa cédula circulou entre 1942 e 1974. Fonte: Banco Central.

Com o crescimento industrial em curso, na década de 1950, acreditava-se que a inflação era uma espécie de combustível para o crescimento, pois junto com seu aumento vinha o aumento da circulação de capital (o índice inflacionário ao final da década de 1950 era de 38%). O problema nesse processo é que os salários nunca acompanham a subida de preços do mercado e só na década de 1980 é que os economistas do governo irão entender que a queda da inflação aumenta a capacidade de compra dos salários.

Na década de 1960 foi incorporado no discurso autoritário dos militares o combate à inflação, tanto que o governo pós-golpe militar de 1964 criou a correção monetária**, que reajustava os preços pela inflação passada e cortou três zeros chamando a moeda de cruzeiro novo (logo depois abandonaram o ‘novo’ e a moeda voltou a ser só cruzeiro).

**Correção monetária é um ajuste de distorções no valor da moeda para se obter seu valor real e para isso toma-se o índice de preços do custo de vida no período que ela será aplicada.

 A correção monetária fez ajustes que derrubaram a inflação de 80% para patamares de 20% ao ano. Mas o trabalhador era quem mais sofria porque a projeção feita para correção dos salários sempre era superada pela subida de preços, isto é, combatiam a inflação com arrocho salarial ao diminuir o poder aquisitivo do povo. Para os militares a exportação era o mais importante para honrar os compromissos de pagamento dos juros da dívida externa crescente – era a chamada ‘modernização conservadora’, na qual o país crescia economicamente sem desenvolvimento social.

Conforme arquivo da Revista Veja, “no início do regime militar, o Brasil vivia um clima de estagnação econômica e aceleração inflacionária. Os militares decidiram implantar o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), que reduziu a inflação de 91,8% ao ano, em 1964, para 22% ao ano, em 1968, mas não conseguiu alcançar as metas de crescimento programadas […] Os índices começaram a se estabilizar, sobretudo no governo do general Garrastazu Médici, com o chamado “milagre econômico”. Entre 1969 e 1973, a economia brasileira registrou taxas de crescimento que variavam entre 7% e 13% ao ano [e a dívida externa crescia, estava em torno de US$ 15 bilhões…] O suposto milagre, no entanto, foi efêmero. O crescimento econômico começa a declinar a partir de 1973. No final da década de 1970, a inflação chega a 94,7% ao ano. As indústrias não conseguem planejar investimentos, as pessoas perdem poder aquisitivo”.

Getúlio Vargas na nota de dez cruzeiros (Cr$ 10,00). Essa cédula circulou entre 1967 e 1972. Fonte: Banco Central.

A produção industrial tinha crescido em média 7% ao ano de 1968 a 1980. A execução de corte do déficit público e redução de moeda em circulação indicados pelo FMI foi um choque para o Brasil porque em 1981 a produção industrial recuou 12%, o desemprego cresceu e o investimento público e privado despencou. Era o início da década perdida, pois com tais medidas, a inflação recuou apenas 10 pontos, de 110 para 100%.

Entenda que na década de 1970 havia uma linha de crédito abundante para os países da América Latina facilitando o endividamento. As crises do petróleo (1973 e 1979) obrigaram os EUA a aumentar as taxas de juros devido ao aumento da inflação seguido da diminuição das exportações.

Em 1982 o México declarou moratória (calote) da dívida e isso dificultou o acesso ao crédito externo da América Latina (neste caso leia-se: o Brasil) com os EUA. Em 1983, a saída do país foi assinar acordo com o FMI que obrigava o controle do déficit público para permitir a rolagem da dívida e concessão de novos empréstimos.

No mesmo ano de 1983 o governo teceu uma nova desvalorização do cruzeiro*** (a primeira foi em 1979) para aumentar as exportações, mas a inflação subiu para 200%. Detalhe é que a dívida externa crescia na mesma proporção que a inflação. O final do regime militar fora de recessão e desemprego. A população tinha ido às ruas com exasperação em 1983 em protestos contra a crise (LEITÃO, 2011, p. 49).

***A desvalorização da moeda é a forma que o governo tem de deixar o produto importado mais caro (desestimular as importações) e facilitar as exportações. No Brasil foi feita também pelo governo Vargas (1930-45) e Dutra (1946-50).

Em 1985 veio a redemocratização com eleições indiretas elegendo Tancredo, que morreu na véspera da posse. Assume o vice Sarney. Conforme Leitão (2011, p. 45, 46), “a Nova República tinha prometido “Esperança e Mudança”, como dizia o lema do PMDB, na época o partido que abrigava também as lideranças que depois formariam o PSDB. E negava as duas promessas, ao manter a mesma política do governo militar […] Sarney era um presidente frágil [neodissidente da ditadura e tolerado em nome do futuro democrático que governava sob a tutela do PMDB de Ulisses Guimarães]. Identificado demais com o regime militar, por tempo demais ele fora presidente do PDS – antiga Arena -, o partido inventado pelos militares”.

 1986 é o ano do lançamento do Plano Cruzado quando a inflação fechou em 76%. O governo decretou o congelamento de preços para conter a inflação e o gatilho salarial quando esta alcançasse 20% ao mês. As donas de casa viraram “fiscais do Sarney” que denunciavam se os preços estivessem além da tabela de congelamento. Como tinham preços controlados, muitos dos bens duráveis sumiam do mercado (desde carros até itens básicos nos supermercados servem como exemplo) e só ressurgiam se o consumidor pagasse o ágio (preço excedente em cima da tabela).

Entre 1986 e 1990 o Plano Cruzado cortou três zeros da antiga moeda que era o Cruzeiro. As cédulas que já estavam em circulação foram carimbadas com a nova moeda. O cruzado. Veja na cédula de Juscelino Kubitschek. Fonte: Banco Central.

O ágio era só uma das distorções do plano. Em pouco tempo as mercadorias da cesta básica como carne, leite, feijão também passaram a sumir das prateleiras e quando se tinha notícia de haver produto em um determinado supermercado a casse média corria e comprava tudo para estocar. Um regime de guerra que fez a farra do consumo junto com o plano Cruzado fracassar no segundo semestre de 1986. Num país fechado, em que havia tanta barreira à importação, o governo diretamente decidiu importar. Foi um desastre com o governo gastando 2 bilhões de dólares sem conseguir fazer chegar a mercadoria a tempo na prateleira, por causa da burocracia perpetuando assim o desabastecimento. Isso contribuía para o sobrepreço ilegal chamado ágio que muitos dos consumidores eram constrangidos a pagar.

O governo lançou um plano sem pé nem cabeça chamado de Cruzado II (liberou os preços, acabou com o gatilho salarial e aumentou a carga tributária), pois a inflação no início de 1987 voltava ao patamar de 16% no mês de fevereiro. A economia entrou em colapso e o Brasil não tinha mais reservas cambiais. Sarney anuncia o calote da dívida externa e o país passou a ser tratado como caloteiro. O ministro da fazenda Dilson Funaro foi demitido em maio de 1987 dando lugar a Bresser Pereira que anunciou o plano Bresser em junho de 1987.

Empresários previam um novo congelamento e aumentaram os preços antes do plano ser anunciado. A estratégia era anunciar por um preço muito alto de dar um desconto para vender, mas não deu certo porque a unidade criada pelo plano para fazer a conversão dos preços e salários (Unidade de Referência de Preços – URP) defasou os salários em 26%, coisa que em anos depois a justiça ordenou a devolução. Resumindo o entendimento, no plano Bresser os produtos foram remarcados preventivamente a valores que os salários não conseguiam obter poder de compra, e sendo assim, aconteceu o contrário do plano Cruzado – as mercadorias sobravam nas prateleiras e os carros que tiveram um aumento de 80%, nos pátios das montadoras.

No final do ano de 1987 a inflação anual bateu os 366%, Bresser foi demitido e entrou Maílson da Nóbrega que ficou por mais de dois anos no cargo de Ministro da Fazenda. Mesma época que o país conheceu as mais altas taxas de inflação da sua história.

Maílson começou mentindo sobre os rumores de um novo plano (ele sempre negava). Em meados de janeiro de 1988 o plano Verão foi lançado criando uma nova moeda, o cruzado novo (voltou o congelamento dos preços e salários e modificou o índice de rendimento das cadernetas gerando perdas de mais de 20% aos correntistas). Durou menos de um verão, pois dois meses depois a inflação voltava a uma crescente batendo em 6% e nos meses subseqüentes viria com força total.

Cédula de 50 cruzados novos (NCz$ 50,00). Circulação de 1989 à 1992. Fonte: Banco Central.

No final do ano de 1989 a inflação chegou a 55% ao mês e as aplicações bancárias rendiam mais do que a produção. Assim quem tinha dinheiro passava a viver de especulação, pois em março de 1990 o patamar hiperinflacionário chegou aos 83% (4.853% no ano). O presidente Sarney dizia que não se podia fazer nada porque a culpa era da crise internacional. Na verdade, Sarney estava mais preocupado com o tempo que passava descansando em sua Ilha de Curupu. Para se ter uma ideia, a inflação era de 3 a 4% ao dia, números que hoje respondem à inflação anual.

O comercial mostrado no vídeo anterior resume que os tempos atuais, época em que as crianças não tem a mínima noção do que significa inflação, são bem diferentes da época de Sarney quando elas até faziam propaganda de combate a esse mal, pois sabiam que a palavra inflação era das mais pronunciadas no dia a dia e tinham a noção que a pronúncia do que infla (ou cresce) associada a um sufixo ‘ão’ virava sinônimo do que era o mais prejudicial no que diz respeito à alta nos preços dos produtos e serviços.

Fernando Collor é eleito presidente pelo PRN (aliado ao PFL, hoje DEM e PDS, hoje PP) e antes da posse pede ao antigo ministro Maílson da Nóbrega que anunciasse 3 dias de feriado bancário, o que foi feito. No terceiro dia a equipe econômica chefiada pela ministra Zélia Cardoso de Melo anuncia o mais cruel, tresloucado e violento plano econômico sobre as famílias brasileiras. A invasão da vida dos cidadãos através do confisco das poupanças. Era o plano Collor.

As empresas passaram a não ter dinheiro nem para produzir, nem para pagar os funcionários e passaram a demitir causando uma onda de infelicidade. A liquidez do mercado era dada pelo varejo, pois os únicos cruzados que ficaram na mão da população, esta usava para comprar comida. Os eletro-eletrônicos deixaram de vender estagnando a economia. A inflação baixou de 85% em março para 14% em abril de 1990, mas foi naquele 1990 o país teve a pior recessão da sua história.

Além do confisco generalizado, no governo Collor houve a diminuição da participação do Estado na economia pelas privatizações (que já haviam sido iniciadas no governo Sarney) e abertura da economia ao ingresso de produtos importados por meio da redução e eliminação de impostos de importação (da forma que foi feita essa abertura, várias pequenas e médias empresas do mercado nacional quebraram aumentando o desemprego).

A ministra Zélia não tinha o mínimo preparo para o cargo (note isso em pouco mais de 1 minuto no vídeo que segue), não sabia explicar um plano tão amalucado e inacreditável, e pior, era indiferente à tragédia que tinha causado. A inflação voltou e Collor anunciou em janeiro de 1991 outro plano, o Collor II. Congelou os preços do varejo e liberou o das indústrias gerando preços artificiais no mercado. Houve uma queda brutal de vendas.

Em maio de 1991 assume Marcílio Marques Moreira que não lança plano algum, apenas começa a devolver o dinheiro do confisco (ao final da devolução os correntistas perderam cerca de 40% do poder de compra do capital original – processos na justiça para ressarcimento tramitam até hoje).

Em 1992 Collor foi deposto por corrupção. No último momento entregou carta de renúncia ao senado para escapar do impeachment. O senado não aceitou e o presidente teve seus direitos políticos cassados por 10 anos.

Assume o vice Itamar Franco no ano que o PIB ao invés de crescer, tinha recuado 0,5%. É com o ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso que o Brasil estabilizará a economia com o Plano Real em 1994.

Veja abaixo ofertas em cruzeiro no período inflacionário de 1993. O curioso é que o nome do supermercado era Real, mesmo nome da moeda que iria estabilizar os preços no país.

Fernando Henrique Cardoso era ministro das Relações Exteriores do governo Itamar Franco. Foi remanejado para o ministério da fazenda. Era o quarto ministro da fazenda de Itamar em sete meses. A imprensa queria saber como o novo ministro ia fazer o país se livrar da inflação que chegava a 40% ao mês.

Mas, concretamente, o que Fernando Henrique tinha nas mãos? Uma meia dúzia de assessores. Alguns diplomatas escolhidos no ce­leiro de bons burocratas que sempre foi o Itamaraty: o executivo Clóvis Carvalho, trazido por ele da iniciativa privada, mas que tinha escassa capacidade de entender a sofisticação dos instrumentos que seriam usados na estabilização; Edmar Bacha, economista maduro, que dominava a teoria dos planos de desindexação, mas escaldado pelo doloroso fracasso do Cruzado, cansado do sacrifício de morar em duas cidades já dava sinais de querer ir embora. Sinais que angus­tiavam Fernando Henrique, que achava a maturidade e lucidez de Bacha essenciais. Winston Fritsch e Gustavo Franco, dois bons eco­nomistas, eram inexperientes em governo. Gustavo Franco é realiza­dor, capaz de transformar ideias em projetos concretos, com enorme capacidade de trabalho e rara determinação para ocupar espaços.

Tudo somado, era pouco. Fernando Henrique precisava de mais gente ao seu lado. Não tinha, no entanto, argumentos para convencer quem ele queria e com quem sonhava. Os primeiros dias foram gas­tos em entender o que se passava ali.

A última escolha para integrar a equipe foi a do economista Persio Arida completando novamente a equipe do Cruzado. Daí em diante, passaram a se reunir com assiduidade a equipe responsável pela criação do Plano Real:  Pedro Malan, Edmar Bacha, Persio Arida, Gustavo Franco, Winston Fritsch, André Lara Rezende e Clóvis Carvalho. Eduardo Jorge, assessor que o ministro tinha trazido do Senado, participava também, mas em geral calado.

Começava o embrião do Plano Real com a medida provisória nº434 de fevereiro de 1994 que instituia a U.R.V. (Unidade Real de Valor). Isso significava que estava criada uma criatura do sistema monetário que poderia ser usada nos contratos, como unidade de conta, mas não era emitida, não circulava, não pagava contas nem impostos. Era moeda e não era, ao mesmo tempo, isto é, um embrião de moeda. Como pela Constituição o país não pode ter duas moedas, a URV tinha apenas uma das funções de moeda, era unidade de conta, mas não existiria fisicamente.

No momento de seu aparecimento, a moeda virtual URV valia 647,50 cruzeiros reais. Todos os dias a cotação seria diferente e fixada pelo Banco Central. Ocorreria inflação em cruzeiro real, mas a URV teria que permanecer fixa. O salário mínimo era 64,79 URVs, o que equivalia a 42.829,00 cruzeiros reais. A indexação fixa significava que 1 URV = 1 dólar.

1 de julho de 1994 foi a data que a nova moeda entrou em circulação, o Real que seria a oitava moeda brasileira no século XX. O dinheiro brasileiro já havia sido mil-réis; em 1942 virou cruzeiro; em 1965, cruzeiro novo e um dia esqueceram o adjetivo “novo”. Em 1986, o cruzeiro virou cruzado, depois cruzado novo, voltou a ser cruzeiro, virou cruzeiro real, e, naquele dia marcado, a URV viraria o real.

Em março de 1994, Fernando Henrique Cardoso deixa o governo para concorrer ao pleito presidencial. Assumiu Rubens Ricupero que em 30 de junho do mesmo ano entregou ao presidente Itamar Franco a exposição de motivos para a implantação do Plano Real.

Até o 1 de julho, a casa da moeda já havia produzido 935,5 bilhões de cédulas em real que significavam R$ 24,6 bilhões. As agências do Banco do Brasil receberam as remessas da nova moeda e o povo começava a trocar o velho cruzeiro real pelo novo dinheiro. Na troca a velha moeda precisaria ser dividida pelo número 2.750 para se chegar ao valor da nova, pois o real de 1994 era igual a uma URV e, no dia em que entrou em circulação, valia 2.750 cruzeiros reais (exemplo: um quilo de carne colchão mole era 9.290 cruzeiros reais que convertidos passaram a 3,33 reais).

Cédula de 50.000 cruzeiros reais que circulou entre out. de 1993 e set. de 1994. Na época em que foi trocada no Banco do Brasil pelo real significou R$ 18,18. Fonte: Banco Central.

Toda essa estabilização teve um preço, e para consegui-la, o governo passou a manter uma política cambial fixa pelo receio da volta da inflação. Para manter o câmbio fixo (paridade de 1 dólar = 1 real), o Banco Central compra e vende dólares no mercado usando suas reservas cambiais. Sobre tais reservas, o governo elevou a taxa SELIC**** para atrair capital externo especulativo e aumentar as reservas cambiais no Banco Central. O problema é que os juros altos do mercado inibem as atividades produtivas, reduzem o crescimento do PIB (crescimento médio foi baixo: 2,3% ao ano nos mandatos de FHC) e contribuem para o aumento da dívida interna (R$ 400 bilhões no final de 1999) e do desemprego (cerca de 10% da PEA entre 1994 e 2002).

****Criado em 1979, o Sistema Especial de Liquidação e Custódia é um índice no qual o mercado se baseia por suas taxas de juros e serve como referência da política monetária brasileira, isto é, reflete o custo do dinheiro para empréstimos bancários, com base na remuneração dos títulos públicos e que acaba definindo todas as taxas de juros na economia do país. Quem estabelece a política monetária e as metas da SELIC é o Conselho de Política Monetária – COPOM que foi criado em 1996.

Mantendo o câmbio fixo e artificial com uma moeda forte, havia dificuldade de exportação e isso fazia com que a balança comercial fechasse em déficit (veja gráfico que segue).  As crises financeiras na Ásia (1997, Tigres – 1998, Rússia) contribuíram para que os investidores ficassem desconfiados e reduzissem o fluxo de dólares no Brasil (fuga em 1997/98 na ordem de US$ 40 bilhões). Houve uma maxidesvalorização do real em janeiro de 1999 que foi apelidada de ‘crise fiscal’. A partir daí o governo foi obrigado a tornar o câmbio flutuante. Isso, mesmo sendo involuntário, deu início ao aumento da produção industrial interna, das exportações, e fez a balança comercial fechar em superávit a partir de 2001 como mostrado no gráfico abaixo.

*A partir de 2007 a economia norteamericana entrou em uma crise que se tornou mundial em 2008, reduzindo as exportações brasileiras. Fonte: SENE, Eustáquio; MOREIRA, João Carlos. Geografia geral e do Brasil. São Paulo: Scipione, 2010, p. 474.

As estatísticas do IBGE registram o tamanho da saga brasileira: de 1980 a 1994, a inflação acumulada foi de 13.342.346.717.617,70%, em resumo, 13 trilhões e 342 bilhões por cento. De 1994 a 2009, a inflação acumulada foi de 196,87%. Na travessia, o Brasil mudou.

57 thoughts on “Inflação, Planos e Moedas: Saga Brasileira

    • Unidade Real de Valor – um fator de indexação fixo como se fosse uma moeda virtual (sem circulação) que servia como preparação para a nova moeda que circularia fisicamente no mercado.
      Depois da sua dúvida escrevi mais sobre o plano real (6 últimos parágrafos).
      Leia e qualquer coisa posta a dúvida.

  1. Parabéns, Marcos, pelo belo resumo desta saga que a Miriam escreveu sobre. Eu era jovem, tinha 13 anos quando o Real entrou em circulação, mas meu pai era bancário, e me explicou pacientemente a revolução que aquilo foi, o quanto foi importante para a redistribuição de renda do país. Lembro, no começo daquele ano, de estudar a inflação no colégio e de ela ser de 42% ao mês. Hoje levamos uma década pra chegar nisso. Num país de memória tão curta, textos como o seu são uma tábua de sensatez num rio de boçalidades. Parabéns.

    • Obrigado Enderson,
      Quando li o livro da Miriam, além de relembrar muita coisa achei que deveria divulgar para que todos soubessem como o povo sofreu com tantos pacotes econômicos. Agora enxerguei outra finalidade do meu escrito: quem sabe as pessoas com a leitura do que você escreveu também relate o que se passou com elas… Tomara!

  2. Professor, as datas no trecho a seguir estão corretas?
    “e só na década de 1980 é que os economistas do governo irão entender que a queda da inflação aumenta a capacidade de compra dos salários.

    Na década de 1960 foi incorporado no discurso autoritário dos militares o combate à inflação”
    Porque se estiverem corretas ficou um pouco confuso pra mim…

    • Sim Henrique.
      Na verdade são duas coisas que não se dissociam (inflação e poder de compra dos salários), mas nesse contexto, os interesses eram diferentes. (1) A ditadura militar não se preocupava com esse poder de compra da população, e apenas com o crescimento do PIB (o discurso foi incorporado, mas não foi seguido, pois a inflação depois das crises do petróleo oscilava em torno de 30% ao ano). Para os militares, o combate à inflação era um discurso também para culpar a social-democracia (nesse caso juscelinista, pois no Jango houve estagnação industrial) de um crescimento econômico associado à alta de preços em que o poder de compra do povo era diminuído – só que a inflação ainda era encarada como processo de crescimento devido à crescente circulação de capital no mercado que crescia junto às indústrias. (2) Na década de 1980, o combate a inflação tornou-se a meta principal, pois não se tinha mais como sustentar um país com inflação que entrou a quase 1.000% ao ano e chegou a mais de 4.000% no final da década (fora o problema da crescente crise, desemprego…), e a dívida externa em 1982 era cerca de US$ 85 bilhões, e a inflação a fazia crescer mais (veja que no final da década de 1950 e início da de 1960 a média inflacionária era de 40% ao ano com grande crescimento industrial – e do emprego – e uma dívida externa em torno de US$ 3 bilhões).
      Espero ter sanado a dúvida.

  3. Marcos, tudo bem? Gostaria de saber
    1 – pq o segundo governo FHC, e a primeira crise do real, foram ocultados? ou o livro terminou nesse momento lindo de FHC?
    2 – a bem da verdade gostaria de lembrar que o plano foi elaborado pelo antecessor de FHC, meu professor da UnB, Ricupero, Ciro Gomes e economistas da PUC-RJ. Pq foram descartados? Qualquer ser desse reino animal sabe disso !!!
    4 – da uma olhadinha na entrevista de Itamar Franco sobre o Plano.

    • Marcos, tudo bem? Gostaria de saber
      1 – pq o segundo governo FHC, e a primeira crise do real, foram ocultados? ou o livro terminou nesse momento lindo de FHC?
      2 – a bem da verdade gostaria de lembrar que o plano foi implementado pelo sucessor de FHC, meu professor da UnB, Ricupero, Ciro Gomes e economistas da PUC-RJ. Pq foram descartados? Qualquer ser desse reino animal sabe disso !!!
      4 – da uma olhadinha na entrevista de Itamar Franco sobre o Plano.

      • Rey, meu querido colega Reynaldo,
        Em homenagem a você, uma figura que prezo academicamente, fiz algumas inserções no texto que respondo abaixo.

        (1) Quanto à crise cambial de 1998/99, não foi citada originalmente, mas, em sua homenagem, já está incluída.
        (2) Fiz justiça aos nomes dos economistas da PUC-RJ – Ricupero também foi citado ao entregar a exposição dos motivos da MP434. Ciro foi apenas mais um ministro como qualquer outro seria.
        (4) Li sim a entrevista de Itamar, mas dei o desconto por já ser inimigo de FHC.

        Na verdade acho que o Luis Nassif tinha razão quando escreveu: “Esse grupo [dos economistas da PUC-RJ] esteve disponível para Sarney, Collor e ofereceria seus préstimos para o governante que solicitasse. Teriam montado o plano Real, fosse FHC, Rubens Ricúpero ou Ciro Gomes o Ministro da Fazenda […] O grande feito de FHC, de fato, foi administrar as excentricidades de Itamar, sua impaciência no pré-Real […] A grande habilidade dos economistas do Real foi terem montado a maior jogada cambial da história – que enriqueceu a todos eles e também banqueiros de investimento associados – sem ser pecebida por duas pessoas sérias, o próprio Ricúpero e Ciro Gomes.”

        Mas sendo apartidário, a verdade é que FHC organizou a equipe e mesmo sem entender direito o plano ficou com os méritos. Além do escrito ser pautado em uma síntese do livro de Leitão.
        Abraço

    • Numa segunda etapa, já no ano de 1994, editou-se a Medida Provisória nº 434, de 28 de fevereiro, que criou a URV — ] Fernando Henrique deixa o cargo de Ministro da Fazendo em meados de março de 1994, para cumprir o prazo de desincompatibilização para disputar a Presidência. Em 30 de junho de 1994 o então Ministro da Fazenda de Itamar Franco Rubens Ricupero encaminhou ao presidente a Exposição de Motivos da MP do Plano Real E.M. Interministerial Nº 205/MF/SEPLAN/MJ/MTb/MPS/MS/SAF que disciplinou o Plano Real,[15]

  4. Esse blog tá cada vez mais incrível! Polêmicas sempre acrescentam se os “egos” continuarem “ocultos” para a paz de todos. Beijos baianinho…

  5. Realmente uma das análises mais detalhadas sobre a saga brasileira por uma estabilidade monetária. Parabéns pelo texto.

  6. Professor, seria ótimo se você comentassem em aula ou escrevesse um post sobre as moções aprovadas no congresso do PT. Eu estou sem entender, essas moções vão fazer parte politica do partido ou são validas para o Estado? e o que eles querem dizer com “Não tenho qualquer receio de afirmar que o 4º Congresso avançou no sentido da democracia socialista”?
    http://www.pt.org.br/index.php?/noticias/view/artigo_um_congresso_a_favor_da_democracia_e_do_socialismo_por_carlos_arabe
    http://www.pt.org.br/index.php?/noticias/view/delegados_do_4_congresso_extraordinario_aprovam_nove_mocoes

    • Olá Ludmila,
      Não é necessário um post sobre esse assunto, pois são só políticas do partido (não valem para o Estado). Quanto à afirmação petista sobre ‘democracia socialista’… Cuidado!!! Isso é o que eles (os filiados do partido) dizem, mas definitivamente não é o que praticam. Se praticassem, seria perto do que no final do século XIX começou a ser chamada de social-democracia, isto é, uma incorporação de elementos marxistas com o Estado de bem-estar social democrático através de uma evolução capitalista em que seriam inseridos princípios tanto do capitalismo como do socialismo.
      O PT está muito longe da ideologia que prega. Veja uma abordagem sucinta e consciente sobre esse assunto (do Congresso e do PT de hoje): http://blogs.estadao.com.br/joao-bosco/

  7. O sábado foi muito produtivo para discutir as medidas do Plano Collor com meu irmão, que é professor de história na UnB e me passou o video que segue. É impressionante ver a naturalidade com que se fala no Jornal Nacional de uma medida que gerou tanta infelicidade e descontentamento com uma parcela tão grande da população. Espero que o video acrescente bastante as suas aulas.

  8. faltou falar, como ficou as emprezas ,que quebram,receberam indenizaçoês ,ou ainda esperam ressacir seu dinheiro perdido?

  9. Será que ate hoje o Reynaldo ta acreditando nesse governo que é formado por uma quadrilha do PT ? Lamentável quando se fecha os olhos pra realidade!

  10. Incrível o seu blog!!! Muito bom mesmo. Discussões e apresentações sobre política e economia invejáveis. Fico feliz de poder trabalhar com uma pessoa com uma visão tão ampla do país e do mundo. Parabéns!!!

  11. Muito Bom blog!
    Entrei no blog por acaso atras de um assunto e vi outros tantos interessantes. Professor nunca fui fã de geografia, mas sou fã de geopolitica como pode isso?
    Mais uma vez um bom blog esse e ja curti no facebook pra ser divulgado.

    • Obrigado pelo comentário e ajuda na divulgação Davi!
      Sou professor das duas matérias (geografia e geopolítica) e fascinado pelas duas, mas o que nos prende na geopolítica é a interligação dos acontecimentos pela via estratégica interligando-se muito às disciplinas história e relações internacionais.
      Navegue a vontade!

  12. Tá explicado por que êle sofreu o Impeachment, mexeu com as OLIGARQUIAS!!
    Já o atual deu deu deu dinheiro para as OLIGARQUIAS, E POR
    ISSO NÃO SOFREU IMPEACHMENT

    • Desculpe Sonia, mas Collor sofreu impeachment não por mexer com as oligarquias (na verdade ele sempre foi a favor delas) e sim pelo esquema de corrupção junto com a corja que envolvia principalmente seu tesoureiro PC Farias, sua ministra Zélia Cardoso de Melo e sua mulher Rosane Collor.
      Foi instaurada uma CPI após a pressão da sociedade civil (‘caras pintadas’) contra a corrupção. Depois do relatório da CPI veio a votação do impeachment (dos 480 deputados presentes, 441 votaram a favor da deposição de Collor).
      Se quiser saber mais e com imagens veja esse link dos episódios no Jornal Nacional: http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-246935,00.html

    • Não Fernanda, pois tem muita coisa de 1º e 2º anos. Mesmo porque a matéria de Brasil e Geral do 3º ano é revisão do 1º e 2º anos. Na verdade o blog ainda está faltando algumas matérias que aos poucos vou escrevendo sobre elas.

    • Olá Profa. Luiza,
      Obrigado pelas palavras! Partindo de uma colega com tal qualidade teórica é um grande certificado para nosso blog.
      Estou lendo seus livros didáticos… E além do texto, ando me deliciando com os mapas e gráficos esclarecedores!
      Abraço

      Ps: Profa. Luiza Angélica Guerino é formada em geografia pela USP e ministra aulas em Curitiba. Autora dos livros didáticos de Ensino Médio da Editora Positivo. Tive a oportunidade e o prazer de conhecê-la em uma tarde de trabalho de set. 2011 quando a autora fez uma apresentação de sua obra no Sigma em Brasília-DF.

  13. Professor,
    Vou fazer uma simulação da ONU agora em Janeiro sobre o tema narcoterrorismo, drogas ilícitas e vou representar o Irã. Gostaria de saber se você me indicaria algum site, livro onde eu possa encontrar informações sobre o assunto e sobre o país ou até se já teria algum texto a respeito.
    Já agora agradeço pelo seu trabalho e foi uma honra ser sua aluna.
    Obrigada.

  14. Professor,
    Eu vou participar dessa mesma simulação que a Carol tá fazendo, mas estarei representando Israel. Estou tendo muita dificuldade pra descobrir qual a política externa desse país em relação ao terrorismo e ao narcotráfico. Gostaria que você me desse dica de alguns pontos e características importantes de Israel que podem influenciar no posicionamento desse país
    Desde já agradeço
    Abraços
    Agnes M.

  15. Boa tarde profº,

    Encontrei seu blog pesquisando sobre geopolitica no google e achei mto interessante. Eu gostaria de uma ajuda sua se possivel. Minha monografia da faculdade será sobre a invasao sovietica ao afeganistao porem nao encontro obras a respeito. Vc conheceria alguma? Pode ser em ingles mesmo?

    abraços

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