Indústria, Acumulação de Capital e Desconcentração Industrial no Brasil (Séc. XIX ao séc. XXI)

Por Marcos Bau Brandão


A industrialização brasileira começa a dar seus primeiros passos no século XIX, mesmo porque o Alvará de 1785 determinava a extinção de todas as fábricas têxteis da colônia. Esse Alvará só foi revogado com a vinda da família real ao Brasil em 1808.

O texto segue sobre todo o histórico da industrialização brasileira e o vídeo acima mostra onde o país quer chegar no que começa a se desenhar como a 4ª Revolução Industrial nesse século XXI.

Até 1850 a industrialização foi bastante modesta (tínhamos aproximadamente 35 indústrias), pois as tarifas alfandegárias eram muito altas (Lei Alves Branco)[1], além da maioria das elites não estarem interessadas no crescimento do parque industrial, e sim, na expansão da produção de café. Com isso, o Estado ficava mais alheio à industrialização e o mercado interno – que já era pequeno – não desenvolvia o potencial da sua força produtiva (esses fatores explicam a natureza tardia da nossa inserção industrial no capitalismo mundial). Um dos mais importantes empresários dos meados do século XIX foi o Barão de Mauá, que foi banqueiro, fundou a indústria naval brasileira, inaugurou a primeira estrada de ferro, assim como a primeira rodovia pavimentada do país.

[1] Com a balança comercial em déficit e as finanças públicas em baixa, o Ministro da Fazenda Manuel Alves Branco, em 1844, aumenta a tarifação impondo taxas entre 20% e 60% para produtos importados. Embora tenha sido uma medida para aumentar a arrecadação do Tesouro Nacional, a Tarifa Alves Branco indiretamente incentivou a produção nacional por causa dos produtos importados ficarem mais caros. Portanto, cabe a informação de que, em 1890, o Brasil possuía 636 fábricas, com maior produção no Rio de Janeiro (só em 1920 São Paulo vai passar o Rio de Janeiro em produção – 32% a 21% – e na década de 1930, a capital paulista irá se tornar uma grande metrópole industrial contendo todo tipo de fabricação existente no Brasil).  

Até o final da década de 1910, grande parte dos negócios do Brasil era realizada com a Inglaterra, mas ao final da I Guerra Mundial (1914-1918), os Estados Unidos entraram no mercado sul-americano e com seus investimentos, tornaram-se credores de 35% da dívida externa brasileira. O tipo de indústria que predominava até a década de 1920 (tínhamos pouco mais de 13 mil estabelecimentos industriais) era a de alimentação (40%), seguida pela têxtil (28%), chamadas de bens de consumo não duráveis.

Nas palavras de Becker e Egler (2006, p. 74), “foram várias as condições criadas pelo complexo exportador cafeeiro para o surgimento da indústria de substituição de importações. Essas condições incluíam a demanda por bens salários nas áreas de produção e no seu segmento urbano […] expandiu-se, assim, a indústria de bens de consumo, principalmente têxtil. O primeiro censo geral das indústrias brasileiras (1907) registrou 3.258 estabelecimentos e 150.841 operários, sobressaindo a indústria têxtil (cerca de 60%) e de alimentação (15%), concentrada no Rio de Janeiro (33%), São Paulo (16%) e no Rio Grande do Sul (15%).”

Vista geral da Fábrica de tecidos Cambuci, São Paulo. Fonte: Acervo Biblioteca Nacional apud www.portalsaofrancisco.com.br/ acesso em 14 mar 2010.

A partir da crise na bolsa de Nova Iorque (1929) houve a diminuição da entrada de produtos estrangeiros no Brasil e uma diversificação nas atividades agrícolas, já que as exportações de café (principal produto desde 1830) ficaram bastante prejudicadas, pois os EUA eram nosso maior comprador. Com a tomada do poder por Getúlio Vargas e os militares em 1930 (Revolução de 1930), o capital aplicado nos bancos da cidade de São Paulo, pelos barões do café, propiciou o desenvolvimento da infra-estrutura para a implantação de mais indústrias. Importante ressaltar que, no mundo, desde séculos anteriores até a quebra da bolsa em 1929, era uma época em que o liberalismo dominava a lógica capitalista, ou seja, acreditava-se que o mercado se regulava por ele mesmo sem nenhuma intervenção estatal. Só após a quebra de 29 que as idéias do keynesianismo[2] tornaram-se indispensáveis e aplicadas no New Deal norte-americano.

[2] Teoria econômica formulada pelo inglês John Maynard Keynes (1883-1946) que consistia no avesso ao liberalismo ao por o Estado como agente central e regulador no controle da economia.

Foi durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) que a indústria brasileira ganhou um grande impulso, através da chamada política de substituição de importações. Vargas, nacionalista convicto, teve como objetivo principal efetivar a industrialização do país, privilegiando as indústrias nacionais, para não deixar o Brasil cair na dependência externa. Esse privilégio varguista tocado pela intervenção estatal dava o caráter keynesiano ao seu governo, ou seja, “a intervenção do Estado eliminou as estruturas rurais arcaicas e promoveu o desenvolvimento industrial […] O “Estado Novo” implantou parte da infra-estrutura necessária […] A ideologia autoritária forneceu a justificativa tanto para o fortalecimento do Estado quanto para a incorporação política de novos setores sociais com o fim de reforçar a nacionalidade” (BECKER; EGLER, 2006, p. 77 e 78).

Com a desvalorização da moeda para instigar as exportações e inibir importações, leis voltadas para a regulamentação do mercado de trabalho, medidas protecionistas e investimentos em infra-estrutura, a indústria nacional da era Vargas cresceu significativamente nas décadas de 1930-40, a partir, principalmente, dos investimentos estatais (o capital privado diminuiu investimentos devido à obtenção de retorno em longo prazo e alto custo de implantação das indústrias de base ou pesadas). Porém, este desenvolvimento continuou restrito aos grandes centros urbanos da região sudeste, provocando uma grande disparidade regional, porém, é do início do século XX até a década de 1940 que começa o que se pode chamar de primórdios da integração nacional, quando se estabelece uma rede brasileira de cidades.

Durante a II Guerra Mundial (1939-1945), em troca do envio de tropas para lutar ao lado dos aliados e da instalação de uma base militar em Natal-RN, Getúlio Vargas negocia com os dois lados[3] e consegue US$ 20 milhões emprestado dos Estados Unidos para a implantação das duas primeiras indústrias de base no país. Somados a mais US$ 20 milhões do governo brasileiro surge a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN criada em jan 1941, inaugurada em 1946) em Volta Redonda/RJ. Pouco mais de um ano depois o Brasil inaugura a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD, 1942) para explorar o minério de ferro em Minas Gerais.

[3]Getúlio Vargas durante a II Guerra jogava habilmente dos dois lados, o que ficou apelidado de “neutralidade interesseira”. No caso da implantação da siderurgia negociou com a alemã Krupp e com a norteamericana United States Steel Corp.  Apesar de assessores do governo declararem simpatia a Hitler, o chanceler Osvaldo Aranha em uma conferência no RJ propôs o rompimento de todas as nações americanas com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Hitler ao saber disso manda afundar submarinos brasileiros. O povo clama vingança e o Brasil entra na guerra contra o Eixo em 1942.

 

As primeiras indústrias de base ou pesadas atendiam ao cunho nacionalista do governo Vargas, já que desde janeiro de 1940 o Código de Minas proibia a participação de estrangeiros na mineração e na metalurgia.

Após a deposição de Getúlio Vargas em outubro de 1945 (para entender tal deposição pesquise sobre o movimento queremista), assumiu interinamente por três meses o presidente do STF José Linhares até que as eleições pusessem o general Eurico Gaspar Dutra no poder. A situação financeira era favorável devido às divisas acumuladas no exterior, resultante das exportações nos anos de guerra (FAUSTO, 2008, p. 403). O governo Dutra causou um déficit com os EUA e outros países de moeda forte ao usar reservas cambiais decorrentes das exportações acumuladas durante a Segunda Guerra, para importação de muitos produtos supérfluos (de brinquedos, decoração a eletrodomésticos) voltados para a classe média levando ao esgotamento das divisas sem trazer consequências positivas. Isso contrariava interesses da indústria nacional e obrigava o governo a desvalorizar o cruzeiro em relação ao dólar fazendo com que os salários perdessem poder aquisitivo e a inflação aumentasse. Em 1947, o governo mudou de orientação, lançou o Plano Salte em 1948 (investimentos na saúde, alimentação, transportes, energia e educação) e na política externa reforçou-se a aliança com os EUA. Enfim, o país estagnou em crescimento no início do governo Dutra e só teve índices de crescimento entre 1948 e 1950, mas a grande compressão dos salários não acompanhavam o aumento inflacionário do custo de vida. Quanto ao Plano Salte, não teve nem o investimento nem o retorno social esperado devido, principalmente, ao aumento da inflação.

Ressalte-se que “quase 60% das importações latino-americanas entre 1946-48 provinham dos Estados Unidos, que absorviam quase a metade das exportações do continente […] O Brasil era o mais fiel aliado dos Estados Unidos, mas as reais prioridades norte-americanas estavam na Europa e na Ásia, para conter a expansão soviética” (BECKER; EGLER, 2006, p. 80).

Getúlio Vargas volta ao poder por eleição em 1950; neste ano, o país possuía cerca de 70 mil indústrias e São Paulo já tinha se consolidado como a grande metrópole fabril do país. Em 1952 foi criado o Banco Econômico de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, e em 1953, com a criação da Petrobras (desde 1947, contra o liberalismo do governo Dutra já tinha surgido a campanha nacionalista “o petróleo é nosso”), ocorreu um grande desenvolvimento das indústrias ligadas à produção de gêneros derivados do petróleo (borracha sintética, tintas, plásticos, fertilizantes, etc). O plano getulista de crescimento tinha oposição dos liberais que defendiam a entrada cada vez maior do capital estrangeiro, pois argumentavam que a economia fechada não propiciava a modernização e expansão do parque industrial tornando o país produtor apenas de produtos primários. Sendo assim, qualquer baixa de preço que afetasse tais produtos (como café, por exemplo, que respondia por 70% das exportações) resultaria na crise de todo o setor modernizador do país.

Nesse segundo período de Vargas no poder (1950-54), “a postura nacionalista de impor restrições às remessas de capital para equilibrar a balança comercial provocou o rompimento com o Banco Mundial […] Tornou-se patente que a industrialização por substituição de importações, dependente da capacidade de importar gerada pelo setor agroexportador, tenderia à estagnação” (BECKER; EGLER, 2006, p. 81). Durante a guerra crescemos nossas exportações e fechamos a balança comercial superavitária em toda a década de 1950. A indústria nessa década cresceu 15% e acumulamos grandes reservas de moeda estrangeira (divisas). O governo getulista da década de 1950 também investiu muito no impulso em transportes e comunicação que teria um maior crescimento no pleito presidencial juscelinista, de cunho desenvolvimentista. Em resumo, “o processo de industrialização, intensificado a partir de 1930, quebrou com o relativo isolamento do arquipélago mercantil articulando as regiões brasileiras sob o comando dinâmico de São Paulo […] No início da década de 1960, a configuração do Brasil exibia uma estrutura articulada, porém desigual, com o Sudeste, centralizando a maior parcela da renda nacional, devido à expressiva concentração da produção industrial, principalmente no Estado de São Paulo. As outras regiões brasileiras se organizavam em uma vasta periferia” (BECKER; EGLER, 2006, p. 90).

Este artigo atende aos fins de leitura e pesquisa e pertence ao blog GeoBau (http://www.marcosbau.com.br). Proibida a reprodução pelo Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610/98 de Direitos Autorais. PLÁGIO É CRIME. DENUNCIE. 

Durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), o desenvolvimento industrial brasileiro ganhou novos rumos e feições, com o Plano de Metas implantado pelo governo. JK abriu a economia para o capital internacional atraindo indústrias multinacionais. Foi durante este período que ocorreu a instalação de montadoras de veículos internacionais (Ford, General Motors, Volkswagen e Willys) em território brasileiro e a construção civil também empregou bastante, com a migração para a nova capital do país no Planalto Central, Brasília, o Distrito Federal inaugurado em 21 de abril de 1960. A transferência da capital se mostrou como um passo importante para uma maior articulação da rede de estradas que expandiu o consumo do que era produzido internamente e exigia mais mercados, não apenas fora, mas também dentro do país. A integração do país pelos transportes influenciados pela industrialização fazem nascer importantes cidades no interior do território, pois a pavimentação dos principais eixos rodoviários, RJ-SP, RJ-BA, BH-SP, SP-Curitiba-POA, concretizou-se entre as décadas de 1950 e 1970.

Conforme Santos e Silveira (2005, p. 45), “a criação de uma indústria automobilística e a construção de Brasília confluíram também para favorecer São Paulo e aumentar o desequilíbrio econômico […] A própria construção de Brasília teria sido impossível se a indústria já não se houvesse desenvolvido em São Paulo.”

Juscelino em junho de 1957, quando foi lançado o Chevrolet Série 6.500 e o primeiro Mercedes-Benz o L-312. O primeiro caminhão Chevrolet totalmente nacional sai da linha de montagem em 1957. Fonte da figura:  www.autoclassic.com.br/…/jk_no_mercedes.jpg.

No Plano de Metas de JK, 73% dos investimentos foram em energia e transportes (um dos lemas do governo junto a outro que ficou famoso: “50 anos em 5”). Houve aumento da produção de hidreletricidade e início do programa nuclear. A produção de petróleo aumentou consideravelmente e o desenvolvimento rodoviário foi intenso facilitando a entrada de montadoras citadas em parágrafo anterior. A produção de bens de consumo duráveis deu continuidade à substituição de importações, processo que se tornará contínuo, iniciado no primeiro governo de Getúlio Vargas.

Esse período é chamado de desenvolvimentista pela participação de empresas multinacionais ou transnacionais e introdução do modelo de consumo pautado no american way of life (modo de vida norte-americano), mesmo porque a maior parte dos investimentos (49%) vinham do EUA, seguidos pela Alemanha (18%), Suíça (6%), França (4%), Inglaterra (4%), Japão (4%) e outros países com um investimento em torno de 10%. A produção capitalista do espaço juscelinista continuava a concentração do parque industrial na região Sudeste (destaque para as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo), acentuando as diferenças regionais do país e fazendo com que as migrações internas contribuíssem para o crescimento urbano desordenado. Como o traçado das rodovias obedecia às exigências do incipiente crescimento industrial e comercial, a posição de São Paulo tornou-se mais centralizadora da produção e distribuição desde os bens mais primários até os mais industrializados.

O Plano de Metas juscelinista mesclou doses do modelo liberal, em que o mercado se regula sem a intervenção estatal, com o modelo nacional-desenvolvimentista implantado na era Vargas (década de 1930). Uma mistura que consolidou o parque industrial brasileiro na produção de bens de consumo não duráveis (produzidos desde meados do século XIX), bens de capital e produção (investimento do Estado do governo Getúlio Vargas), e de bens de consumo duráveis (participação do capital estrangeiro inserido no governo Gaspar Dutra que era totalmente submisso aos EUA e melhor administrado no governo JK, sem aquela submissão e com investimento de novos mercados).

Construção da Esplanada dos Ministérios em Brasília. Governo JK. Fonte: História sem Fronteiras.

Com todo o crescimento desenvolvimentista e parceria estrangeira, o novo modelo teve também resultados negativos. Houve um aumento do custo dos produtos e uma diminuição da competitividade no mercado externo pelo investimento quase que exclusivo no transporte rodoviário (política rodoviarista), já que nosso maior parceiro, os EUA, também era grande exportador de veículos e petróleo. Concentração de capital e firmas, inflação (38% ao ano no final do governo) e aumento da dívida externa (patamar aproximado de 2,5 bilhões de dólares), concentração de renda e crescente poder da burocracia foram todos, problemas que surgiram durante a administração Kubitschek, mas que só explodiram depois. A crise econômica explodiu em 1962, e foi exacerbada pela crise política que levou à renúncia, após sete meses de governo, do presidente populista Jânio Quadros, eleito em 1960.

Nesse contexto de incorporação nacional e desenvolvimento, João Goulart, por ser vice de Jânio Quadros (antes também vice de JK, já que nessa época votava-se para presidente e para vice separadamente), assume a presidência em 7 de setembro de 1961, em meio a uma grande turbulência política que instaura o regime parlamentarista, para diminuir o poder do presidente. Em 6 de janeiro de 1963, um plebiscito escolheu a volta do presidencialismo por larga margem de votos. Em 1962, o governo divulgou um plano, elaborado pelo economista Celso Furtado, para combater a inflação e desenvolver o país. No mesmo ano inaugurou a hidrelétrica de Três Marias/MG e anunciou também as reformas: agrária, tributária, administrativa, bancária e educacional. Muito por causa da turbulência política, o plano econômico falhou, houve aumento da inflação, do desemprego, das greves e o governo brasileiro teve que negociar empréstimos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e com o governo dos Estados Unidos, que exigiram corte nos investimentos. Em seu governo, Jango aprovou leis que garantiam benefícios aos trabalhadores urbanos e rurais. Também procurou diminuir a participação de empresas estrangeiras em alguns setores da economia. Manteve uma política externa independente: reatou relações diplomáticas com a União Soviética e se recusou a apoiar a invasão a Cuba, proposta pelo presidente americano John Kennedy. As tensões sociais no país aumentaram e o nacionalismo de Jango foi tachado de comunismo. Em 13 de março de 1964, Jango discursou na Central do Brasil para 150 mil pessoas e anunciou reformas, como a nacionalização de refinarias de petróleo e a desapropriação de terras. No dia 19 de março, em São Paulo, aconteceu a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, cujo objetivo era mobilizar a opinião pública contra a política desenvolvida pelo governo de Jango que, segundo eles, levaria à implantação do comunismo no Brasil. A sociedade civil, muito conservadora, proporcionou condições para o 31 de março de 1964, dia do golpe militar.

Após 1964, com o golpe militar, o Estado assumiu a função de órgão fiscalizador das atividades econômicas dirigidas ao avanço da industrialização e da modernização conservadora, ou seja, não se incluía nesse crescimento industrial os avanços na área social. Conforme Santos e Silveira (2005, p. 46), “era um novo passo na internacionalização da economia brasileira, com a influência explícita da Guerra Fria e os acordos assinados para tornar mais segura a entrada de capitais.” Para Becker e Egler (2006, p. 124-126), “a combinação do projeto geopolítico com o autoritarismo histórico resultou numa modernização conservadora […] De um lado, reconhecia-se que a indústria de bens de capital não era suficiente para garantir a soberania nacional, e que requeria também a autonomia tecnológica e a instrumentalização do espaço como base para a acumulação e a legitimação do Estado […] A geopolítica da ditadura militar concentrou suas forças em três espaços-tempo com práticas específicas: implantação da fronteira científico-tecnológica na área core do país; rápida integração do território, com incorporação definitiva da Amazônia; e projeção no espaço internacional.”

Entre 1968 e 1973, o país cresceu mais de 10% ao ano e esse período ficou sendo chamado de “milagre econômico”, pois para assegurar esse crescimento o governo aumentou a capacidade financeira da classe média e alta e retirou os subsídios dos produtos de consumo alimentar da população aumentando a pauperização da população de baixa renda. Veja adiante que o chamado “milagre” de crescimento dos militares era completamente efêmero, pois todo ele se pautou no aumento sem limites da dívida externa.

Para financiar a industrialização do chamado “Brasil-Potência”, o país realizou um endividamento externo em ritmo galopante: de US$ 5 bilhões em 1965 para US$ 20 bilhões em 1975. Em 1979, pela 1ª vez, as exportações de produtos industrializados e semi-industrializados superaram as exportações de bens primários (produtos da agricultura, minérios, matérias-primas). À década de 1970 também se associa a um processo de desconcentração industrial no Brasil, que conforme Santos e Silveira (2005, p. 106), “a produção industrial torna-se mais complexa, estendendo-se sobretudo para novas áreas do Sul e para alguns pontos do Centro-Oeste, do Nordeste e do Norte (Manaus). Paralelamente, as áreas industriais já consolidadas ganham dinamismos diferentes dos que definiram a industrialização em períodos anteriores.”

Concentração empresarial antes de 1969 e pós 1995. Fonte: HERVÉ, Théry; MELO, Neli Aparecida de. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. 2.ed. São Paulo: EDUSP, 2008, p. 151.

O período da Ditadura Militar (1964-1985), de um lado contribuiu para o desenvolvimento industrial no setor de bens de produção (petroquímica, energia elétrica, mineração, siderurgia, química básica etc) – e de infra-estrutura rodoviária e portuária, em que constam obras faraônicas como a ponte Rio-Niterói, ITAIPU, usina termonuclear de Angra dos Reis, etc, de outro fez com que nossa dívida crescesse a passos largos onerando a economia brasileira levando à penalização da população de baixa e média rendas e também à queda no PIB, associado a períodos de hiperinflação.

A década de 1970 foi um marco ao inserir o Brasil no meio geográfico definido por Milton Santos (2005, tópico 2.3) como meio técnico-científico-informacional, que ampliou e modernizou a rede de transportes e a agricultura, revolucionou as telecomunicações e, com isso, aumentou a fluidez do território. No início dessa década, São Paulo respondia por 60% da produção industrial brasileira, pois as manchas do citado meio tecnológico respondiam por uma contiguidade nas regiões Sudeste e Sul e intermitência nas demais regiões do país.

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Concentração industrial no Sudeste. Fonte: HERVÉ, Théry; MELO, Neli Aparecida de. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. 2.ed. São Paulo: EDUSP, 2008, p. 157.

A década de 1980 foi chamada por muitos economistas de “década perdida”, pois os saldos da nossa balança comercial não eram mais suficientes para pagar os juros da dívida. Após um período de inflação ascendente, foi lançado em 28 de fevereiro de 1986 – pelo Governo Sarney – o Plano Cruzado, que embora tivesse objetivos implícitos eleitorais, foi caracterizado por uma tentativa de promover o crescimento da produção econômica brasileira, sem passar pela penosa austeridade fiscal e monetária que seria a marca registrada do Plano Real, em 1994. No entanto, a proteção alfandegária que existia na época restringia as importações e o desabastecimento, principalmente de produtos de primeira necessidade promovido por setores oligopolizados da economia, condenou o plano econômico ao fracasso, não obstante sua política de manter o câmbio congelado e a taxa real de juros baixa fizesse o PIB conhecer uma bolha de consumo interna sem precedentes na sua história. Esse  parágrafo liga-se diretamente ao texto de síntese do livro de Miriam Leitão, Saga Brasileira. Para ler é só clicar aqui.

O trecho abaixo foi adaptado do artigo do economista Lauro Mattei, intitulado Desenvolvimento Brasileiro no início do Século XXI – Crescimento econômico, Distribuição de renda e Destruição ambiental

Nesses últimos anos vem se consolidando no Brasil um modelo econômico fortemente atrelado ao circuito internacional das commodities primárias baseado no uso intensivo dos recursos naturais, tanto as de natureza agropecuária como aquelas oriundas das atividades extrativas minerais. Com isso, o país adentrou ao Século XXI como um dos grandes exportadores mundiais, porém sem uma inserção internacional competitiva, particularmente na esfera de produtos industriais de alta e média intensidade tecnológica […] Em termos de crescimento econômico, nota-se que a primeira década do Século XXI começou com taxas de crescimento muito baixas. Isso decorreu dos resultados do período anterior, quando a economia foi submetida a um intenso processo de ajuste estrutural, seguindo as concepções neoliberais vigentes à época. Esse ajuste se fez sentir nos últimos anos do Governo FHC (2001-2002) e no primeiro ano do Governo Lula (2003) […] Nesse início de século XXI consolida-se no país uma característica dominante das relações comerciais embasada nas exportações de produtos com baixos índices tecnológicos […] dos US$ 256 bilhões obtidos em 2011 com o comércio para o exterior, US$ 132 bilhões diziam respeito ao setor de commodities de uso intensivo dos recursos naturais. Neste caso, destacam-se o minério de ferro – responsável por 13% das exportações totais do país -; petróleo bruto; carnes, soja, café e açúcar […] tomando-se o ano de 2000 em diante como referência, nota-se que em termos reais o Brasil cresceu bem mais que a média européia e do próprio Reino Unido. Se as diferenças já eram grandes até 2006, a partir de 2007 elas se tornaram ainda maiores. Assim, entre 2006 e 2011 nota-se que o Brasil cresceu 28%, enquanto os países europeus, fortemente afetados pela crise, cresceram apenas 5,7% e o Reino Unido 2,9% […] Nestas contas, todavia, devemos considerar outros indicadores que talvez espelhem melhor a realidade, de forma a não permitir que sejamos tolhidos pelas aparências. Por exemplo, para se avaliar a verdadeira riqueza de um país o PIB per capita é um indicador mais adequado. Neste caso, observa-se que o Brasil possui um valor de US$ 8.300 por habitante/ano, enquanto o valor do PIB per capita do Reino Unido é de US$ 43.700 habitante/ano. Isso nos diz que ainda serão necessárias muitas décadas de avanços para se chegar a uma situação confortável e de país desenvolvido como aquela revelada pelo Reino Unido. Um dos caminhos para isso é tentar desvendar algumas contradições existentes no atual modelo brasileiro. Em primeiro lugar, é necessário deixar claro que a atual política econômica, ao mesmo tempo em que consegue manter a estabilidade macroeconômica do país, continua sendo extremamente lenta no enfrentamento da histórica desigualdade social brasileira. Vejamos um exemplo elementar. É inegável o papel das transferências monetárias sociais – conforme destacamos neste texto – no sentido de reduzir as desigualdades. Todavia quando se compara as dimensões das distintas ações percebe-se a quem de fato a atual política macroeconômica está beneficiando mais. Para atender 13 milhões de famílias pobres no ano de 2011 o programa Bolsa Família gastou cerca de R$ 11 bilhões, enquanto que o Governo Federal pagou somente de juros aproximadamente R$ 170 bilhões, o que comprova que a atual política estimula a elevação de ganhos da classe rentista através das taxas de juros (mesmo assim, a renda das famílias mais pobres cresceu mais comparativamente a renda das famílias mais ricas: 9% e 4%, respectivamente), ou seja, é a classe rica – detentora dos títulos públicos – a que mais está tirando proveito do atual sistema econômico-financeiro brasileiro (Adaptado de Lauro Mattei: Desenvolvimento Brasileiro no início do Século XXI – Crescimento econômico, Distribuição de renda e Destruição ambiental, 2012, p. 32-47).

Desconcentração Industrial – O escrito abaixo foi adaptado do artigo de João Saboia, intitulado Desconcentração industrial no Brasil nos anos 90: um enfoque regional, 2000

Ao mesmo tempo em que a indústria se modernizava ao longo das últimas décadas, houve um intenso processo de mudanças locacionais, tanto intra quanto inter-regiões. Tal movimento está detalhado em Diniz e Crocco (1996). A partir da análise do período 1970/91, os autores apresentam o “novo mapa da indústria brasileira”, com o esvaziamento do principal pólo industrial do país, —a região metropolitana de São Paulo. A amostragem segue na direção de que houve uma reconcentração industrial no interior de São Paulo e, de modo mais amplo, na região que se estende do centro de Minas Gerais ao nordeste do Rio Grande do Sul, especialmente em cidades de porte médio. Ainda segundo os autores, apesar da expansão da fronteira agrícola e do sistema de incentivos fiscais, as áreas restantes dispersas pelo país “não demonstram força para uma alteração macroespacial da localização industrial no Brasil”.

Tendo em vista as mudanças ocorridas na economia ao longo da década de 90, também houveram importantes transformações espaciais na localização da indústria nos últimos anos. Tomando o Estado de São Paulo e seus municípios como exemplo, em 1970 sua região metropolitana detinha 77,52% das indústrias, e em 1990 essa participação diminui para 58,92% – quanto ao Brasil, o Estado de São Paulo em 1970 detinha 58,42% da produção industrial do país e em 1990, 52,43%. Embora em linhas gerais, as conclusões de Diniz e Crocco permaneçam válidas, tem havido um recente movimento da indústria para alguns estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Por outro lado, a desconcentração industrial em direção ao interior dos estados é generalizada em todo o país, não sendo uma característica apenas das regiões Sul e Sudeste. Apesar da queda do emprego nos principais pólos industriais, novas aglomerações se consolidaram nas mais diversas regiões do país.

Além da desconcentração regional, um outro importante movimento tem ocorrido dentro dos estados: o deslocamento da indústria das capitais para o interior.

Em1989, enquanto 52,8% do emprego industrial se concentravam nas capitais, em 1997 havia baixado para 45,7%. Tal movimento repete-se pelas diferentes regiões do país. Na região Sudeste, por exemplo, o movimento é bastante pronunciado, caindo de 59,3% para 51,9%. Em quase todos os estados houve queda do emprego nas capitais. Em São Paulo, por exemplo, há redução de 61,3% para 54,5%. Entre os seis principais estados industriais,10 apenas em Minas Gerais e Santa Catarina não houve perda da participação das capitais. No primeiro caso, a região metropolitana de Belo Horizonte praticamente manteve sua participação, enquanto Florianópolis possui uma participação mínima no emprego de Santa Catarina. Analogamente, houve perda de participação das capitais no número de estabelecimentos industriais, baixando de 47,3% para 41,5% no período. Mais uma vez, a região Sudeste destaca-se pela alta perda de participação das capitais, que cai de 54,1% para 46,8% dos estabelecimentos. Nos seis principais estados industriais, houve redução da participação das capitais nos estabelecimentos da indústria. A região metropolitana de São Paulo absorvia 58% dos estabelecimentos do estado em 1989 e 52,3% em 1997. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, a queda foi de 75,9% para 69,5%.

Fonte: Artigo Scielo

Em outro artigo intitulado  Concentração e Desconcentração Industrial no Brasil e sobre tal processo, conforme o economista José Eduardo Monteiro da costa, a partir de 1985, e de forma mais acentuada depois de 1989, ocorreu uma reversão no processo de desconcentração industrial e, principalmente, o interior paulista passou a apresentar um aumento de sua participação na produção industrial, fundamentalmente em produtos com maior intensidade tecnológica. A convergência da renda nacional que estava em curso também é estancada em decorrência da redução dos fluxos migratórios de longa distância e da crise econômica nacional que impactou a dinâmica de crescimento da economia brasileira e, conseqüentemente, o processo em curso de convergência das rendas regionais.

A década de 1990 testemunha a implantação das políticas do Consenso no Brasil – abertura comercial e financeira, privatização de ativos públicos, ajuste fiscal, redução da atuação do Estado e busca da estabilidade macroeconômica, dentre outras – e o ocaso das políticas de desenvolvimento regional e da visão de cooperação federativa com o Estado-nacional deixando de ser instrumento de fomento do desenvolvimento de sistemas produtivos regionais e da integração nacional. Isto, de acordo com diversas leituras, acaba agravando o processo de concentração industrial na economia brasileira.

Conforme Clélio Campolina Diniz (citado por COSTA, 2012), esse processo de reversão da polarização pode ser desagregado em dois períodos básicos: um primeiro com relativo espraiamento dentro do espaço econômico do estado de São Paulo, e um segundo dentro de uma região geográfica mais ampla na qual estariam se concentrando os setores de alta tecnologia, formada por um polígono definido pelo interior da área que vai de Belo Horizonte – Uberlândia – Londrina/Maringá – Porto Alegre – Florianópolis – São José dos Campos – Belo Horizonte.

A análise dos autores caminha para a conclusão de que o processo de reestruturação relacionado com as mudanças tecnológicas e organizacionais acaba sendo um limite à desconcentração macro-espacial, retendo o crescimento em cidades de médio porte, próximas às grandes capitais do Centro-Sul ou mesmo em áreas metropolitanas de menor dimensão dentro desta região. Ou seja, existe um campo aglomerativo exercido pela economia paulista que não deixa que o desenvolvimento se espraie para além da área poligonal.

Fonte: Blog Geografia na Indústria.

Outro autor, Aurílio Caiado (citado por COSTA, 2012), afirma que nos anos de 1990 houve um processo de estancamento da desconcentração industrial, havendo mesmo pequena reconcentração de alguns setores em São Paulo, principalmente nos de maior complexidade tecnológica. Para Caiado, o capital industrial no Brasil ainda é comandado a partir de São Paulo – assim como da centralidade na sua Região Metropolitana (SP) pela produção industrial, local da maioria das sedes dos grandes conglomerados industriais, financeiros e de serviços – na medida em que continua a prevalecer a lógica privada de localização industrial, por natureza concentradora, ao mesmo tempo em que inexiste uma política de desenvolvimento regional para as regiões atrasadas.

Obras citadas no texto:

BECKER, Bertha; EGLER, Claudio. Brasil: uma nova potência mundial na economia-mundo. 5.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2006.

COSTA, Eduardo José Monteiro. Concentração e desconcentração industrial no Brasil. COFECON, 2012. Disponível em <http://www.cofecon.org.br/noticias/artigos/16-artigo/2626-artigo-concentracao-e-desconcentracao-industrial-no-brasil>

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2008.

MATTEI, Lauro: Desenvolvimento Brasileiro no início do Século XXI – Crescimento econômico, Distribuição de renda e Destruição ambiental. Arquivo PDF, 2012. (arquivo de aula).

SABOIA, João. Desconcentração industrial no Brasil nos anos 90: um enfoque regional. Pesq. Plan. Econ. Rio de Janeiro, 2000.

SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. 7.ed. São Paulo: Record, 2005.

2 thoughts on “Indústria, Acumulação de Capital e Desconcentração Industrial no Brasil (Séc. XIX ao séc. XXI)

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