Oriente Médio na atualidade

MAIS OBSTACULOS À PAZ

(Guia do Estudante, 2010, p. 66)

Novo governo israelense defende posi√ß√Ķes consideradas inaceit√°veis pelos palestinos, que, por sua vez, se dividem em um grave conflito entre suas principais organiza√ß√Ķes.

Mapa de Israel e Palestina

As Colinas de Gol√£ s√£o um ponto estrat√©gico que possui excelentes recursos h√≠dricos. Israel capturou o territ√≥rio da S√≠ria em 1967 (na Guerra dos Seis Dias) e anexou-o em 1981. Alguns colonos israelenses vivem aqui e desenvolveram a regi√£o para o turismo. A S√≠ria se recusa a aprovar qualquer acordo de paz ou a normaliza√ß√£o das rela√ß√Ķes com Israel a menos que as colinas sejam devolvidas ao controle s√≠rio (fonte: BBC Brasil).

Quando se examina o sangrento e prolongado conflito entre Israel e os palestinos, a impress√£o √© que a situa√ß√£o n√£o para de se complicar. Ap√≥s d√©cadas de tentativas infrut√≠feras de acordos de paz, h√° uma situa√ß√£o de impasse sem precedentes. Do lado israelense, o novo governo do primeiro-ministro Benyamin Netanyahu defende posi√ß√Ķes que os palesti¬≠nos consideram inaceit√°veis at√© para iniciar conversa√ß√Ķes. No campo palestino, h√° uma s√©ria divis√£o entre as duas principais orga¬≠niza√ß√Ķes: o grupo laico Fatah – que dirige a Autoridade Nacional Palestina (ANP), instalada na Cisjord√Ęnia-e o grupo isl√Ęmico Hamas – que controla a Faixa de Gaza.

O cotidiano de quem vive nessa parte do mundo √© marcado por mortes e destrui√ß√£o. O √ļltimo conflito aberto ocorreu no fim de 2008, quando Israel iniciou uma ofensiva √† Faixa de Gaza, com fortes bombardeios e ataques terrestres, que causaram, em tr√™s semanas, mais de 1,4 mil mortes. A ofensiva agravou a situa√ß√£o de desastre humanit√°rio existente no territ√≥rio por causa do bloqueio imposto por Israel, que impede a entrada ou sa√≠da de pessoas e mercadorias.

Problemas n√£o resolvidos

Para entender essa situa√ß√£o, √© preciso recuar no tempo. O marco desse conflito foi a cria√ß√£o do Estado de Israel, em 1948, que provocou a expuls√£o de milhares de palestinos das terras nas quais viviam. No ano anterior, a Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas (ONU) havia aprovado uma resolu¬≠√ß√£o apoiando a divis√£o da Palestina em um Estado judeu e outro √°rabe, que nunca se constituiu. A nova situa√ß√£o causou desesta¬≠biliza√ß√£o em todo o Oriente M√©dio, que tem como uma de suas express√Ķes as guerras entre Israel e na√ß√Ķes √°rabes vizinhas. No decorrer de d√©cadas, houve v√°rios choques armados.

Em 1993 ocorreram os Acordos de Oslo, mediados pelos Estados Unidos (EUA), que tra√ßaram a meta de que a regi√£o contivesse dois Estados: um judeu (Israel) e um pales¬≠tino, esse √ļltimo formado por duas por√ß√Ķes de terras descont√≠nuas – a Faixa de Gaza e a Cisjord√Ęnia, sob ocupa√ß√£o israelense desde a Guerra dos Seis Dias (1967). Os mesmos acordos definiram a cria√ß√£o da ANP, para dar os passos rumo √† organiza√ß√£o institu¬≠cional dos palestinos. Nos √ļltimos anos, essa √© a perspectiva para a regi√£o que d√° o tom nas negocia√ß√Ķes internacionais.

Desde o in√≠cio das conversas, por√©m, pro¬≠blemas s√©rios deixaram de ser resolvidos. Um √© a situa√ß√£o de Jerusal√©m. Os palestinos defendem a ideia de que a parte oriental da cidade, ocupada pelos israelenses desde 1967, seja a capital de seu futuro Estado. Israel n√£o aceita, pois considera a cidade inteira como a sua capital. Outro ponto fun¬≠damental para os palestinos n√£o encontra acordo: o direito ao retomo dos que foram expulsos do territ√≥rio israelense. Com a cria√ß√£o de Israel, mais de 700 mil palestinos tomaram-se refugiados. Outra grande onda de deslocamentos ocorreu ap√≥s a Guerra dos Seis Dias, quando outros 500 mil tiveram de deixar sua casa. Os refugiados, seus filhos e netos, somam agora quase 4,7 milh√Ķes de pessoas, segundo a ONU. Esse enorme con¬≠tingente vive precariamente em campos de refugiados. O governo israelense n√£o aceita debater sua volta, pois o eventual regresso poria em xeque as pr√≥prias bases nas quais Israel se assenta.

Assentamentos israelenses

Embora Israel tenha se comprometido com os Acordos de Oslo, manteve a pol√≠tica de criar assentamentos nos dois territ√≥rios destinados ao futuro Estado palestino. Co¬≠lonos israelenses instalaram-se nos locais, expulsando os palestinos, e formaram po¬≠voa√ß√Ķes situadas em regi√Ķes de popula√ß√£o √°rabe. Para parte dos religiosos judeus, essas √°reas pertencem a seu pa√≠s desde os tempos b√≠blicos.

Em 2005, o governo israelense decidiu abandonar a Faixa de Gaza. Retirou todos os 21 assentamentos ali existentes, al√©m de quatro pequenas col√īnias no norte da Cisjord√Ęnia. Para muitos palestinos, a medida n√£o era um recuo, mas apenas um meio de consolidar e ampliar os as¬≠sentamentos na Cisjord√Ęnia – √°rea muito maior e mais pr√≥spera que a min√ļscula Faixa de Gaza. Existem cerca de 300 mil colonos israelenses na Cisjord√Ęnia e 180 mil em Jerusal√©m oriental.

Al√©m disso, desde 2002 Israel passou a isolar as popula√ß√Ķes palestinas da Cisjord√ʬ≠nia, separando vilas e bairros uns dos outros por meio da constru√ß√£o de um enorme muro de concreto. A justificativa inicial era impedir a entrada de terroristas em Israel. Na pr√°tica, o muro propiciou que o pa√≠s anexasse √°reas palestinas e hoje restringe a circula√ß√£o de pessoas e mercadorias pela regi√£o.

Cis√£o entre palestinos

Nessa situa√ß√£o j√° dif√≠cil, o movimento fundamentalista isl√Ęmico Hamas obteve estrondosa vit√≥ria, em 2006, nas elei√ß√Ķes parlamentares palestinas, e indicou Ismail Haniyeh para primeiro-ministro da ANP. Isso teve graves consequ√™ncias, pois os EUA, a Uni√£o Europeia e Israel recusaram-se a manter conversa√ß√Ķes com um governo che¬≠fiado por uma organiza√ß√£o que consideram terrorista Criou-se um entrave a qualquer tipo de entendimento entre as partes.

Os Acordos de Oslo haviam estabelecido que o governo israelense deveria transferir à ANP os impostos e as taxas cobrados dos produtos importados que entram pelos portos de Israel em direção aos territórios palestinos. Com a vitória do Hamas, Israel deixou de repassar esses valores, como for­ma de asfixiar o seu governo. As potências ocidentais também suspenderam o envio de ajuda financeira aos palestinos.

Com isso, o Hamas passou a ser pressio¬≠nado internacionalmente a reconhecer o Es¬≠tado de Israel, a abandonar a luta armada e a aceitar os acordos assinados anteriormente entre israelenses e palestinos. O grupo isl√ʬ≠mico n√£o concordou, pois pretende criar um Estado isl√Ęmico em toda a Palestina.

Ao mesmo tempo, as diverg√™ncias entre os pr√≥prios palestinos se ampliaram, e as rela√ß√Ķes entre o Fatah e o Hamas, que n√£o eram boas, deterioraram-se de vez. Os dois grupos passaram a se enfrentar militar¬≠mente, e, depois de in√ļmeras mortes, uma cis√£o consumou-se em junho de 2007.

Em clima de guerra civil, o Hamas ex¬≠pulsou o Fatah da Faixa de Gaza e passou a controlar a regi√£o. O Fatah manteve-se na Cisjord√Ęnia, onde o presidente da ANP, Mahmud Abbas, constituiu um novo gover¬≠no, tendo como primeiro-ministro Salam Fayyad. Esse governo foi logo reconhecido por Israel e pelas pot√™ncias ocidentais. Os EUA suspenderam o embargo financeiro, e Israel descongelou os valores de impostos e taxas que estavam retidos.

Netanyahu no governo

Em novembro de 2007, o governo norte¬≠americano patrocinou uma confer√™ncia so¬≠bre o Oriente M√©dio em Annapolis (EUA), com o presidente da ANP, Mahmud Abbas, o primeiro-ministro israelense, Ehud 01¬≠mert, e representantes de quase 50 pa√≠ses e organiza√ß√Ķes. No documento final, israe¬≠lenses e palestinos comprometeram-se a tentar um acordo de paz at√© o fim de 2008, que assegurasse a exist√™ncia de dois Esta¬≠dos. Mais uma vez n√£o houve avan√ßos.

O governo de Olmert enfrentava s√©rios problemas internos. Al√©m de sofrer acu¬≠sa√ß√Ķes de corrup√ß√£o, o primeiro-ministro israelense era criticado por causa da ofensiva militar contra o L√≠bano em 2006. O ataque, que visava ao grupo xiita Hez¬≠bollah, foi considerado um fracasso.

Nas elei√ß√Ķes parlamentares, em feve¬≠reiro de 2009, nenhum partido obteve maioria significativa. O mais votado foi o Kadima, de Olmert, mas obteve apenas 28 cadeiras de um total de 120. O direitista Likud veio em seguida, com 27, e o ultra¬≠nacionalista Nossa Casa Israel conseguiu 15. Isso obrigou a uma intensa negocia√ß√£o para a forma√ß√£o do governo. O Kadima, com a maior bancada, acabou na oposi√ß√£o, j√° que o l√≠der do Likud, Benyamin Ne¬≠tanyahu, costurou uma alian√ßa ampla.

Cisjord√Ęnia

Condi√ß√Ķes para a paz

O novo governo, diferentemente do ante¬≠rior, n√£o apoia a pol√≠tica dos “dois Estados” negociada em Oslo. Procura, ent√£o, trocar o foco da quest√£o palestina para o Ir√£, acu¬≠sando o governo iraniano de ser a principal amea√ßa √† seguran√ßa da regi√£o, por causa de sua suposta inten√ß√£o de construir armas at√īmicas. A situa√ß√£o cria certo atrito com os EUA, historicamente os principais aliados e financiadores de Israel. A pol√≠tica externa do presidente Barack Oba¬≠ma, diferentemente da de seu antecessor, George W Bush, prev√™ a abertura de di√°logo com pa√≠ses considerados hostis, como Ir√£ e S√≠ria, com o que Israel n√£o concorda.

Em maio, numa conversa entre os dois governantes, em Washington, Obama rea¬≠firmou apoio √† “solu√ß√£o com dois Estados” e pressionou Netanyahu a interromper a constru√ß√£o de mais assentamentos nos territ√≥rios palestinos. No m√™s seguinte, Netanyahu anunciou oficialmente, em um discurso de grande impacto, as suas pro¬≠postas para um acordo de paz: exige que o futuro Estado palestino seja “desmilitarizado”, n√£o possa controlar suas fronteiras nem seu espa√ßo a√©reo. Al√©m disso, deve reconhecer de forma clara Israel como “um Estado judeu” e n√£o firmar acordos militares com Ir√£ nem com o grupo li¬≠ ban√™s Hezbollah. Com rela√ß√£o √† reivindi¬≠ca√ß√£o de direito ao retorno dos palestinos, o primeiro-ministro disse que √© algo a ser resolvido pela comunidade internacional “fora das fronteiras israelenses”. Quanto aos colonos judeus na Cisjord√Ęnia, sugeriu que, embora n√£o estejam previstos novos assentamentos, os existentes poder√£o cres¬≠cer. Por fim, afirmou que Jerusal√©m deve ser “a capital indivis√≠vel” de Israel.

Tais condi√ß√Ķes, entretanto, s√£o inacei¬≠t√°veis para os palestinos. De acordo com o principal negociador da ANP, Saeb Erakat, “Benyamin Netanyahu fala de negocia¬≠√ß√Ķes, mas n√£o nos deixa nada a negociar. Ele anuncia uma s√©rie de condi√ß√Ķes e de restri√ß√Ķes que tornam imposs√≠vel um Estado palestino vi√°vel, independente e soberano”. Para um dos as¬≠ sessores de Abbas, Yasser Abed Rabbo, o governante “empregou a express√£o `Estado palestino’, mas quer um `protetorado isra¬≠elense”‘. O porta-voz de Oba¬≠ma, por√©m, elogiou o discurso, considerando-o um “importante passo”.Nesse quadro complexo, um plano de paz lan√ßado em 2002 pela Ar√°bia Saudita, e apoiado pelos 22 pa√≠ses da Liga √Ārabe, tem sido citado como base para um poss√≠vel entendimento. A proposta prev√™ a retirada de Israel dos territ√≥rios ocupados na Guerra dos Seis Dias e a aceita√ß√£o de um Estado pa¬≠lestino, na Faixa de Gaza e Cisjord√Ęnia, tendo Jerusal√©m Oriental como capital. Em troca, os 22 pa√≠ses reconheceriam formalmente Israel como Estado judeu. Um representante do governo Obama chegou a manifestar apoio ao plano como base para um acordo. Resta saber se os desenvolvimentos mais recentes d√£o chance a que a proposta seja seriamente levada em conta.

Saiba mais com um resumo cronológico dos fatos

1897 Funda√ß√£o do movimento sionista, que prop√Ķe o retorno dos judeus √† Palestina. Mi¬≠lhares de judeus europeus emigram para a regi√£o, parte do Imp√©rio Turco-Otomano.

Plano de partilha

1920-1948 Dom√≠nio brit√Ęnico na Palestina.

1939.1945 Segunda Guerra Mundial. Fugindo do na­zismo, mais judeus chegam à Palestina.

1947 A ONU prop√Ķe a divis√£o da Palestina em dois pa√≠ses: 56,47% para os judeus e 43,53% para os √°rabes. Os √°rabes rejeitam.

após a independência

1948-1949 Com a retirada brit√Ęnica, os judeus proclamam o Estado de Israel. Jor¬≠d√Ęnia, Egito, L√≠bano, S√≠ria e Iraque atacam, mas s√£o expulsos. Israel cresce 75%; o Egito incorpora a Faixa de Gaza; Cisjord√Ęnia e Je¬≠rusal√©m Oriental s√£o entregues √† Jord√Ęnia; os palestinos ficam sem territ√≥rio.

1964 Criação da Organização para a Liber­tação da Palestina (OLP).

1967 Guerra dos Seis Dias. Israel vence os árabes e ocupa a Faixa de Gaza, a península do Sinai (Egito), as Colinas de Golã (Síria), a Cisjordãnia e Jerusalém Oriental.

após guerra dos seis dias

1973 Guerra do Yom Kippur. Israel derrota ataque do Egito e da Síria.

1977-1979 O Egito e Israel firmam tratado de paz. O Sinai é devolvido ao Egito.

1982 Israel invade o Líbano.

1987 1a Intifada (levante contra a ocupação dos territórios palestinos).

1988 O Conselho Nacional Palestino aceita o plano de partilha da ONU, de 1947.

1993 Acordo de Paz de Oslo e criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob o comando de Yasser Arafat, líder da OLP.

2000 Início da 2ª Intifada.

2002 Muro na Cisjordãnia em construção.

2004 Morre Yasser Arafat.

2005 Mahmud Abbas é o presidente da ANP. Israel remove os assentamentos de Gaza.

2006 O Hamas vence a eleição palestina. Is­rael ataca o Líbano, visando ao Hezbollah.

2007 Choque armado entre os palestinos. O Hamas assume o poder na Faixa de Gaza.

2008 Israel ataca a Faixa de Gaza.

2009 Israel cessa os ataques a Faixa de Gaza devido à posse do Presidente Obama, para evitar um incidente diplomático com os EUA.

Governo Barack Obama

MUDANÇA DE ESTILO

(Guia do Estudante, 2010, p. 57)

Barack Obama chega à Presidência dos EUA em meio a grandes dificuldades internas e externas, mas, à diferença de Bush, enfrenta os problemas com ênfase na diplomacia e na negociação

Barack obama

Seis meses depois da posse como presidente dos Estados Unidos (EUA), Barack Obama continua a impressionar plateias com um discurso vigoroso que fala em mudan√ßas e em novas rela√ß√Ķes do pa√≠s com as demais na√ß√Ķes.

Express√Ķes comuns durante o governo de George W. Bush (presidente de 2001 a 2009), como “guerra ao terror”, foram banidas do vocabul√°rio presidencial, e h√° mais disposi√ß√£o para o di√°logo com outros pa√≠ses. A mudan√ßa de estilo √© ineg√°vel, mas a an√°lise das a√ß√Ķes efetivas mostra que, em muitos aspectos, as modifica√ß√Ķes s√£o bem mais t√≠midas do que se previa.

Os analistas calculam que o presidente esteja enfrentando dificuldades enormes em seu in√≠cio de governo. Al√©m da grave crise econ√īmica, precisa lidar simultane¬≠amente com situa√ß√Ķes delicadas em v√°rias partes do planeta, entre as quais o conflito que envolve Israel e os palestinos, as con¬≠trovertidas elei√ß√Ķes presidenciais no Ir√£, a press√£o pelo fim do embargo a Cuba, o golpe em Honduras e os m√≠sseis que a Coreia do Norte voltou a disparar.

Foi justamente na pol√≠tica externa que as modifica√ß√Ķes tiveram mais destaque. Mar¬≠cado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, Bush definiu-se como o “presidente da guerra”, e a alternativa militar estava sempre entre as op√ß√Ķes de destaque para defender os interesses dos EUA no mundo.

Em nome desses mesmos interesses, Obama adotou outra estratégia, que enfa­tiza a diplomacia Рinclusive em direção aos regimes que não têm a menor simpatia pelos EUA Рe o multilateralismo, ou seja, a busca de acordos e parcerias com os países aliados para uma atuação conjunta.

A express√£o mais repetida pelo presi¬≠dente, dirigida tanto ao Ir√£ quanto a Cuba, assim como ao “mundo mu√ßulmano” em geral e √† Federa√ß√£o Russa, √© a de que seu governo deseja “um novo come√ßo” nas rela¬≠√ß√Ķes rec√≠procas. De forma significativa, ele

se disp√īs a retomar a indica√ß√£o de embaixa¬≠dores norte-americanos na Venezuela e na S√≠ria, cujos governos se op√Ķem aos EUA. Na Am√©rica Latina, iniciou uma aproxima√ß√£o com Cuba.

Domínio militar

Seria incorreto, por√©m, dizer que, em oposi√ß√£o a Bush, Obama seja o “presiden¬≠te da paz”. Durante a sua campanha para presidente, ele prometeu que retiraria as tropas norte-americanas do Iraque at√© maio de 2010. No governo, por√©m, anun¬≠ciou que manter√° entre 35 mil e 50 mil soldados em territ√≥rio iraquiano at√© o fim de 2011. Essa decis√£o foi aplaudida pela oposi√ß√£o (Partido Republicano) e deixou incomodados v√°rios dirigentes do Partido Democrata, o mesmo de Obama.

Afeganist√£oTropas norteamericanas no Afeganist√£o. Fonte: www.enciclopedia.com.pt/…/AP2002-5412.jpg

Além disso, a retirada do Iraque será acompanhada do reforço de pelo menos 21 mil soldados norte-americanos no Afega­nistão, país que, como seu vizinho Paquistão, se tomou o centro da estratégia militar no novo governo. Em julho deste ano, os EUA iniciaram a maior ofensiva militar no Afe­ganistão desde que o país foi ocupado, em 2001.

Os gastos militares sob Obama ir√£o at√© mesmo crescer um pouco. Na proposta de Or√ßamento de 3,55 trilh√Ķes de d√≥lares que o presidente apresentou para o ano fiscal de 2010 (outubro de 2009 a setembro de 2010), o valor destinado √† Defesa √© de 664 bilh√Ķes de d√≥lares, um aumento de 1,5% em rela√ß√£o ao or√ßamento anterior. O presidente deixou claro, em discurso pronunciado em Washington, em mar¬≠√ßo: “N√£o tenham d√ļvidas, este pa√≠s vai manter o seu dom√≠nio militar”.

Segundo o Instituto internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Sipri), as despesas militares mundiais em 2008 totalizaram 1,46 trilh√£o de d√≥lares, dos quais 607 bilh√Ķes de d√≥lares foram gastos pelos norte-americanos.

Guant√°namo

Uma das primeiras medidas anunciadas por Obama foi o fechamento, no prazo de um ano, da prisão na base militar de Guantánamo, em Cuba (veja mapa), para onde o gover­no Bush enviou centenas de prisioneiros acusados de ligação com o terrorismo. Essa diretriz se mantém vigente, mas, nos meses seguintes, outras iniciativas anunciadas nessa área acabaram sendo revertidas, deixando a sensação de que o combate ao terror não sofreu tantas mu­danças em relação ao governo anterior.

Mapa de Cuba

Mapa da ilha de Cuba com Guantanamo ao Sul. Fonte: www1.folha.com.br/…/20060802-mapadecuba.gif

Obama baniu a pr√°tica de tortura nos prisioneiros e, inicialmente, suspendeu as comiss√Ķes militares encarregadas de julgar esses presos por fora do sistema judicial dos EUA. Ao fim de quatro me¬≠ses, por√©m, anunciou que as comiss√Ķes continuar√£o. Al√©m disso, mantiveram-se os programas da CIA (ag√™ncia de inteli¬≠g√™ncia norte-americana) de transfer√™ncia de presos para na√ß√Ķes nas quais eles n√£o possuem direitos legais e a deten√ß√£o por tempo indeterminado, sem julgamento, de suspeitos de vincula√ß√£o com o ter¬≠rorismo. Todas essas medidas, que d√£o prosseguimento ao que Bush fez, foram duramente criticadas por entidades de defesa dos direitos humanos.

A pr√≥pria sorte dos detidos √© incerta – o grande problema para que seja cumprida a decis√£o de fechamento da pris√£o √© saber para onde v√£o os cerca de 240 presos. A Uni√£o Europeia disp√īs-se a ajudar os EUA, recebendo alguns deles, com base em pedidos especiais do governo norte¬≠americano. A ida de presos de Guant√°na¬≠mo para pris√Ķes no interior do territ√≥rio norte-americano, por outro lado, sofre forte oposi√ß√£o de pol√≠ticos, o que torna a solu√ß√£o do problema uma dificuldade a mais para o governo. Outro obst√°culo √© a resist√™ncia das cortes militares quanto √† revis√£o dos procedimentos jur√≠dicos adotados at√© agora.

Planos econ√īmicos

Na pol√≠tica interna, Obama teve de se concentrar em iniciativas que procuram dar conta da grave crise econ√īmica vi¬≠vida pelos Estados Unidos (veja gr√°fico que segue), considerada a pior desde a Grande Depress√£o, em 1929. O governo norte¬≠americano destinou vultosa soma para ajudar bancos, seguradoras e empresas de financiamento imobili√°rio. A primei¬≠ra grande a√ß√£o do novo governo foi um pacote de est√≠mulo √† economia, no valor de 787 bilh√Ķes de d√≥lares, aprovado pelo Congresso em fevereiro.

Gr√°fico desemp EUA

O governo apresentou ainda um plano de salvamento dos bancos, com o objetivo de retirar cerca de 1 trilh√£o de d√≥lares dos “ativos t√≥xicos” das institui√ß√Ķes fi¬≠nanceiras, permitindo que retomem a concess√£o de empr√©stimos. Ativos t√≥xicos s√£o t√≠tulos que tinham como garantia, em geral, os neg√≥cios imobili√°rios que entraram em colapso em 2008. O nome deles √© esse porque s√£o pap√©is que perde¬≠ram o valor e arrastaram quem os possui para a crise. Nessa mesma √°rea, Obama prop√īs uma reformula√ß√£o do mercado financeiro norte-americano, a mais ampla desde a d√©cada de 1930. Se essa proposta for aprovada pelo Congresso, ser√£o au¬≠mentados os poderes de fiscaliza√ß√£o do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Um s√©rio problema social √© o das pes¬≠soas que compraram casa por meio de financiamento e n√£o conseguem mais pa¬≠gar as presta√ß√Ķes, por causa da eleva√ß√£o dos juros. As a√ß√Ķes de despejo por falta de pagamento atingiram milh√Ķes de norte¬≠americanos, desde 2008, e tornaram-se a causa de alguns dos epis√≥dios mais dra¬≠m√°ticos da crise, com cenas de fam√≠lias e todos os seus pertencentes jogados na rua, em frente √† resid√™ncia vazia.

Pressionado pela amplitude do proble¬≠ma social, o governo anunciou medidas de refinanciamento dos empr√©stimos imobi¬≠li√°rios, com o objetivo de reduzir o valor das presta√ß√Ķes e tentar deter os despejos. Analistas afirmam, contudo, que as medi¬≠das n√£o tiveram impacto significativo. Em abril deste ano, o n√ļmero de notifica√ß√Ķes de despejo subiu 32%, em compara√ß√£o com o mesmo m√™s de 2008.

Outra iniciativa social, mais abrangen¬≠te, √© a proposta de gastar 634 bilh√Ķes de d√≥lares, no decorrer de 10 anos, para uma ampla reforma do sistema de sa√ļde dos EUA. Essa era uma das principais bandei¬≠ras da campanha eleitoral de Obama.

O projeto √© eliminar algumas das dedu√ß√Ķes dos impostos dos mais ricos, aprova¬≠das durante o governo de George W Bush, para levantar os recursos necess√°rios √† reforma e criar um fundo de sa√ļde p√ļblica de acesso universal. Estima-se que 47 milh√Ķes de norte-americanos n√£o tenham acesso a nenhum tipo de seguro-sa√ļde.

Intervenção do Estado

A crise econ√īmica provocou uma inter¬≠ven√ß√£o in√©dita do Estado na economia nor¬≠te-americana. A ajuda maci√ßa a empresas teve in√≠cio no fim do governo Bush. Obama seguiu a mesma linha, e o resultado √© que o governo se tornou grande acionista de bancos, como o Citigroup, e de companhias automobil√≠sticas, como a GM e a Chrysler. As duas pediram concordata em raz√£o de dificuldades financeiras. Obama apresen¬≠tou v√°rias exig√™ncias para sua recupera√ß√£o, que abrangem um corte severo de custos e de empregados, com o fechamento de f√°bricas. Al√©m disso, o pr√≥prio sindicato dos trabalhadores automobil√≠sticos (cuja sigla √© UAW) foi chamado pelo governo a colaborar, investindo parte do fundo de pens√£o dos empregados na compra de a√ß√Ķes das empresas e aceitando a redu√ß√£o de sal√°rios e benef√≠cios.

Sede da GM em Detroit, Michigan, EUA.

Sede da GM em Detroit, Michigan, EUA.

Muitos críticos dizem que o governo Oba­ma promoveu a estatização dessas compa­nhias, mas essa avaliação não procede. Para efeito de comparação, vemos que alguns governos de esquerda da América Latina, como o de Hugo Chávez, da Venezuela, e o de Evo Morales, da Bolívia, promoveram a estatização de empresas multinacionais que atuavam em setores estratégicos da econo­mia, como os de petróleo, gás e telefonia. O argumento para essa ação é a necessidade de que a gestão de recursos do país passe permanentemente para as mãos do Estado. No caso dos EUA, nem Bush nem Obama defendem isso Рa intervenção busca sanear as empresas, para torná-las novamente lu­crativas e devolvê-las ao mercado.

O pr√≥prio Obama, em abril, afirmou: “Eu n√£o quero dirigir empresas de autom√≥veis, n√£o quero controlar bancos. J√° tenho de controlar duas guerras. Tenho mais do que o suficiente para fazer. Portanto, quan¬≠to antes sairmos desse neg√≥cio, melhor. Vivemos circunst√Ęncias √ļnicas. Havia o potencial colapso do sistema financeiro, que teria dizimado a nossa economia, portanto tivemos de intervir”.

De todo modo, a iniciativa de ajuda √†s empresas e bancos √© muito criticada por parcela consider√°vel da popula√ß√£o norte¬≠americana, para a qual o dinheiro p√ļbli¬≠co est√° sendo investido na solu√ß√£o dos problemas de banqueiros e de grandes empres√°rios falidos, enquanto milh√Ķes de pessoas comuns perdem o emprego e n√£o t√™m aux√≠lio equivalente.

Desde que os EUA entraram oficialmente em recess√£o, em dezembro de 2007, at√© junho de 2009, 6,5 milh√Ķes de norte-ame¬≠ricanos perderam o emprego. O √≠ndice de desemprego atingiu, em junho, a marca de 9,5%, elevando o total de desempregados a 14,7 milh√Ķes de pessoas.