Uma breve an√°lise sobre alguns fatos pol√≠ticos desde os prim√≥rdios do Brasil at√© a ‚ÄúNova Rep√ļblica‚ÄĚ

Por Marcos Bau em meio ao dia 17 de abril de 2016 e algum 19 de agosto, dia do historiador.




Uma breve an√°lise sobre alguns fatos pol√≠ticos desde os prim√≥rdios do Brasil at√© a ‚ÄúNova Rep√ļblica‚ÄĚ, para verificar quantas manobras trai√ßoeiras (sin√īnimo de golpe conforme o dicion√°rio Michaellis) o status quo dominante teceu sobre a massa popular.¬†

Partiu em 9 de mar√ßo de 1500 e depois de 1 m√™s e meio de viagem, Pedro √Ālvares Cabral chegou √†s terras que chamamos hoje de Brasil, em 22 de abril de 1500, e batizou-as de Ilha de Vera Cruz. Por√©m, em janeiro de 1500, o espanhol Vicente Y√°√Īez Pinz√≥n j√° havia pisado em terras brasileiras pela Ponta do Mucuripe, atual porto na cidade de Fortaleza. Portanto, o verdadeiro ‚Äúachamento‚ÄĚ dessas terras, como frisou o jesu√≠ta Caminha em sua carta para a corte portuguesa, foi de quem? Pior √©: como voc√™ pode achar o que j√° tinha dono?! Os √≠ndios inexistem nesse contexto vil do colonizador, devido ao perp√©tuo etnocentrismo europeu.

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Fonte: Editora Abril.

Incompet√™ncia e corrup√ß√£o j√° faziam parte da pol√≠tica brasileira desde seus prim√≥rdios. O governo de Duarte da Costa (1553-1558) foi marcado pela desordem e corrup√ß√£o, tanto que a C√Ęmara da Bahia implorou pela substitui√ß√£o do referido governante. Mem de S√° (1558-1570) o substituiu e foi o governador letrado, corajoso e cruel em sua pol√≠tica de exterm√≠nio dos ind√≠genas, combate aos franceses e imposi√ß√£o da lei e da ordem proibindo o jogo, a vadiagem e a embriaguez e estimulando o tr√°fico de escravos africanos. Todavia, Mem de S√° amealhou a maior fortuna pessoal do Brasil √† √©poca, atrav√©s do tr√°fico de escravos, fazendas de gado, engenhos de a√ß√ļcar e exporta√ß√£o de pau-brasil. Seriam Duarte da Costa e Mem de S√° os canalhas dos prim√≥rdios da corrup√ß√£o end√™mica que se espalharia pelo Brasil?!

Na segunda metade do século XVII, o bandeirante e genro do também bandeirante Fernão Dias, de codinome Borba Gato, matou um nobre espanhol administrador das minas do rio das Velhas, jogando-o em um buraco. Ficou escondido vivendo no mato e 15 anos depois foi ao encontro do governador do Rio, Arthur de Sá Menezes, para informar a descoberta de minas em Sabará/MG, que estavam em seu segredo. Em troca da informação, o governador perdoou Borba Gato e o promoveu a guarda-mor da região das minas. Dois anos depois, Borba Gato tornou-se superintendente geral das minas do rio das Velhas, basicamente o mesmo cargo que ocupava o fidalgo que ele tinha assassinado. O governador resolveu ele mesmo partir para as minas e ficou por dez meses lá, levando cerca de 600kg de ouro (seria isso também corrupção por uma espécie do clientelismo que iria se perpetuar no bananal?!) e resolveu voltar para Portugal, pois já estava muito rico. Portanto, o que teve início no Brasil colonial perdura no tempo atual, pois na contemporaneidade o privilégio volta-se sempre aos que possuem o poder de mando e mesmo que sejam os mais corruptos, corruptores ou agentes da coação social, continuam sendo a classe dominante, a exemplo das classes política, jurídica e empresarial.

Dom Jo√£o VI ‚Äď covardemente ‚Äď fugiu para o Brasil quando o general franc√™s, Andoche Junot, invadiu Lisboa √† frente de um ex√©rcito de 23 mil soldados e a tomou ao n√£o encontrar resist√™ncia. A fam√≠lia real trouxe doze mil acompanhantes e atravessou o Atl√Ęntico, chegou ao Rio de Janeiro e confiscou 2 mil casas para alojar os nobres sanguessugas. Em pouco tempo Dom Jo√£o foi morar em uma casa na Quinta da Boa Vista, ofertada por um traficante de escravos. Tem gente que, apesar desses atos nada nobres, enobrece tal fam√≠lia real por causa das benesses urbanas no RJ, pois a cidade antes da chegada da realeza era prec√°ria, suja e fedorenta. Dom Jo√£o VI ‚Äď um dos caras mais feios e gulosos de sua √©poca, al√©m de ser muito porco por detestar tomar banho. O rei chauvinista criou minist√©rios, deu emprego p√ļblico para seus parasitas acompanhantes e, para manter a mordomia, fundou o Banco do Brasil, al√©m de imprimir papel-moeda sem lastro at√© mergulhar o pa√≠s em uma profunda infla√ß√£o. A mulher de dom Jo√£o, a espanhola Carlota Joaquina, odiava o Brasil, conspirava contra o marido em prol da Espanha, fumava maconha, colecionava amantes (do seu camareiro a nobres) e foi p√©ssima m√£e ao nunca dar import√Ęncia para o pr√≠ncipe herdeiro D. Pedro (seu filho favorito era Miguel, cujo pai era o marqu√™s de Marialva). Nesse aspecto, Dom Jo√£o tamb√©m tinha seus prazeres sexuais: trouxe um ‘masturbador’ em 1808, que tamb√©m era seu camareiro chamado Francisco Rufino de Souza Lobato, que o masturbava com frequ√™ncia e quando foi flagrado nessa a√ß√£o pelo padre Miguel deportou tal padre para Angola. O chavelho Dom Jo√£o voltou para Portugal com sua fam√≠lia (menos o filho Pedro), em 1821, depois de saquear/roubar mais de 50 milh√Ķes de cruzados do Banco do Brasil e falir o banco por causa disso (agora n√£o h√° d√ļvidas que isso seja corrup√ß√£o!). Antigamente n√£o tinha opera√ß√£o de combate para tentar parar o roubo de empresa estatal e n√£o deixar a empresa falir; hoje at√© tem opera√ß√£o de combate √† corrup√ß√£o, mas, mesmo assim, roubam e fazem a estatal valer muito menos que valia por causa da end√™mica corrup√ß√£o – vai ver √© por causa deles continuarem vivendo aqui, por n√£o terem cidadania l√° fora e por isso n√£o podem fugir como Dom Jo√£o… Pior √© que agora, al√©m de responder pelas falcatruas, os ladr√Ķes de colarinho branco podem ser presos, coisa que se tornou poss√≠vel em tempo muito recente e faz os cidad√£os honestos (a massa majorit√°ria de trabalhadores que tecem seu labor di√°rio arduamente!) pensarem em se o Brasil um dia ‘ter√° jeito’ por estar tentando ‘tomar jeito’.

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Dom Jo√£o VI e Carlota Joaquina.

Em 1821, as Cortes de Lisboa dissolveram o reino do Brasil e da√≠ veio a ordem de volta para o filho de D. Jo√£o VI, D. Pedro I, retornar a Portugal, por sua presen√ßa no Rio de Janeiro tornar-se meramente figurativa. Ao mesmo tempo, as Cortes decidiram que n√£o havia lugar para Dom Pedro I em Portugal e que ele deveria fazer uma viagem por pa√≠ses europeus, a fim de melhorar seus estudos. O fato de ter recebido uma carta de Jos√© Bonif√°cio, assinada pela junta provincial de S√£o Paulo, pedindo para Pedro I n√£o partir, fez o pr√≠ncipe mulherengo (engravidou at√© freiras!) e ‚Äėm√£o de vaca‚Äô ficar no Brasil. Esse epis√≥dio ficou conhecido na hist√≥ria como ‚Äúdia do fico‚ÄĚ. Portanto, se o ‚Äėfico‚Äô foi pela carta ou pelo gosto do poder, j√° que se ele voltasse n√£o seria mais o pr√≠ncipe comandante, tornado imperador, fica a crit√©rio da interpreta√ß√£o do leitor. Se fosse sobre nossos governantes atuais seria √≥bvia a resposta.

A independ√™ncia do Brasil, apesar de muitos acharem que foi revolucion√°ria e progressista, na verdade aconteceu como uma a√ß√£o conservadora (sic). Quem mais contribuiu com dinheiro, armas e homens foram os senhores propriet√°rios de terras, pois o novo ordenamento de pa√≠s conservaria o privil√©gio dos abastados latifundi√°rios, as extremas desigualdades econ√īmicas e tamb√©m continuaria a permitir o regime escravagista. Tanto que v√°rias revoltas por melhoras sociais aconteceram anos depois do 1822, na d√©cada de 1830, como: cabanada, balaiada, sabinada, farrapos… Assim, o Brasil, √† √©poca, se configurava como a √ļnica monarquia do continente e a √ļnica na√ß√£o independente, na qual a economia baseava-se no trabalho escravo. Ali√°s, o Brasil seria o √ļltimo pa√≠s a abolir a escravid√£o na Am√©rica e um dos √ļltimos do mundo, s√≥ antes de Zanzibar (1897), Eti√≥pia (1942), Ar√°bia Saudita (1962) e Maurit√Ęnia (2007). (sic = porque tem gente que acha esse modelo de independ√™ncia uma a√ß√£o revolucion√°ria e progressista).

  • Uma pausa para falar sobre a escravid√£o… A corte lusa, com medo das guerras napole√īnicas, foi escoltada pelos ingleses e chegou ao Brasil em 1808. Os acordos de Portugal com a Inglaterra vinham desde os anos 1600 e, em 1810, Portugal assinou um acordo de amizade com a corte inglesa. Por pura quest√£o mercadol√≥gica, for√ßando a implanta√ß√£o da m√£o de obra assalariada, a press√£o inglesa para a aboli√ß√£o da escravid√£o por parte de Portugal sempre foi ativa durante o s√©culo XIX, tanto que, desde os anos 1820, foi imposta ao governo brasileiro a aboli√ß√£o antes de 1830, mas a oligarquia rural escravagista que comandava o Brasil foi mais forte. S√≥ em 1850, o Brasil promulgou uma lei de proibi√ß√£o do tr√°fico de escravos em seu territ√≥rio, a contragosto dos agricultores oligarcas que tinham assinado, no mesmo ano, uma lei de terras para que o status-quo vigente fosse mantido, ou seja, os latif√ļndios continuassem nas m√£os dos mesmos latifundi√°rios. As press√Ķes inglesas e dos abolicionistas continuaram, mas ao inv√©s de assinarmos logo a futura Lei √Āurea, ainda adiamos a aboli√ß√£o com leis surreais como a do Ventre Livre (1871 – se que adianta nascer livre em um pa√≠s escravagista?) e dos Sexagen√°rios (1885 – surreal de novo, mas fizeram uma lei para tornar livre o escravo que tivesse mais de 60 anos em um pa√≠s que a expectativa de vida do negro era a metade disso – e a mesma pergunta serve: de que adianta ser livre em uma pa√≠s ainda escravagista?). Fomos um dos √ļltimos pa√≠ses do mundo a abolir a escravid√£o, mesmo assim, depois da Lei √Āurea (1888), como a popula√ß√£o continuou racista, vieram mais leis tentando amenizar a situa√ß√£o do negro como a Lei Afonso Arinos, j√° na metade do s√©culo XX, e a mais importante, ou seja, a Constitui√ß√£o de 1988, que tornou o racismo crime inafian√ß√°vel e imprescrit√≠vel. Os demais desdobramentos do negro sendo o mais pobre e o mais marginalizado, ainda no s√©culo XXI, fazem parte do cotidiano urbano e do notici√°rio di√°rio brasileiro. (percebam que nem teclei sobre o fato de a oligarquia rural ter permitido que os imigrantes entrassem desenfreadamente no pa√≠s pela simbologia da “limpeza” da pele pelo branqueamento e pelo mercantilismo de aumentar a concorr√™ncia para pagar um sal√°rio cada vez mais baixo ao imigrante – uma das premissas de termos formado um mercado interno fraco, se comparado com o dos pa√≠ses ditos desenvolvidos). No Brasil do s√©culo XIX, a elite rural aperfei√ßoou sua l√≥gica baseada no escravagismo e na explora√ß√£o extrema da m√£o de obra para ser perpetuada nos dois s√©culos posteriores – A elite pol√≠tica, jur√≠dica e empresarial, que se perpetuou como tal desde o s√©culo XX, foi da mesma l√≥gica escravagista e de reprodu√ß√£o de privil√©gios cada vez maiores para essa minoria e assim cresceu o maior problema do Brasil atual, ou seja, a desigualdade social perpetuada e repetida no mesmo status quo da classe do privil√©gio (que, inclusive, ludibria a boba classe m√©dia e a faz pensar que ela tamb√©m faz parte desse privil√©gio resumido √† elite). O t√≥pico abaixo, de cor diferente, explica essa ideia da classe do privil√©gio e foi tirada do livro de SOUZA, Jess√©. A tolice da intelig√™ncia brasileira. S√£o Paulo: Leya, 2015.* O texto cronol√≥gico volta ap√≥s esse adendo.
  • Para Max Weber, os ricos e felizes, em todas as √©pocas e em todos os lugares, n√£o querem apenas ser ricos e felizes. Querem saber que t√™m ‚Äúdireito‚ÄĚ √† riqueza e felicidade. Isso significa que o privil√©gio ‚Äď mesmo o flagrantemente injusto, como o que se transmite por heran√ßa ‚Äď necessita ser ‚Äúlegitimado‚ÄĚ, ou seja, aceito mesmo por aqueles que foram exclu√≠dos de todos os privil√©gios […] J√° para Pierre Bourdieu, o n√ļcleo da domina√ß√£o social est√° na tentativa de fazer o dominado aceitar por ‚Äúconvencimento‚ÄĚ as raz√Ķes da pr√≥pria domina√ß√£o. Essa produ√ß√£o de ‚Äúconvencimento‚ÄĚ √© precisamente o trabalho dos intelectuais no mundo moderno, substituindo os padres e religiosos do passado […] A quest√£o seria perceber por que as classes do ‚Äúesp√≠rito‚ÄĚ, as classes m√©dias verdadeiras que se apropriam de capital cultural por meio de privil√©gios nunca tematizados em abordagens conservadoras, s√£o percebidas como superiores √†s classes do ‚Äúcorpo‚ÄĚ, que possuem incorpora√ß√£o m√≠nima de capital cultural. S√£o os capitais impessoais, como o capital cultural e sua apropria√ß√£o por meio de privil√©gios injustos que se eternizam no tempo, que condenam √† desclassifica√ß√£o social e √† mis√©ria tantos brasileiros que se tornam obrigados a vender a for√ßa de trabalho por pre√ßo p√≠fio. A classe m√©dia verdadeira se apropria de capital cultural valorizado ao ‚Äúcomprar‚ÄĚ o tempo de estudo dos filhos que podem, ao contr√°rio das classes populares, se dedicar apenas ao estudo. Esse tempo precioso, por sua vez, √© literalmente ‚Äúroubado‚ÄĚ dos nossos exclu√≠dos, que faxinam, fazem a comida e cuidam das casas de classe m√©dia, poupando-lhe tempo precioso que pode ser reinvestido a fim de reproduzir de modo ainda mais profundo seus privil√©gios de nascimento […] A classe m√©dia tamb√©m √© explorada sem disso se dar conta. Temos aqui pre√ßos exorbitantes, pagos especialmente pela classe m√©dia verdadeira, para servi√ßos de quinta categoria, como nossa telefonia celular. Nossa taxa de lucro e juros √© das maiores do mundo e representa uma forma selvagem de acumula√ß√£o capitalista, isto √©, o PIB do Brasil representa quase 70% em ganhos de capital (lucro e juro) ‚Äď que beneficiam, antes de tudo, meia d√ļzia de grandes banqueiros e industriais ‚Äď e reserva pouco mais de 30% para a massa salarial do restante da popula√ß√£o ou mais de 200 milh√Ķes de brasileiros […] Na sociedade moderna os indiv√≠duos creem em uma igualdade de oportunidades para quem ‚Äúrealmente quer vencer na vida‚ÄĚ, mas tamb√©m isso √©, na enorme maioria dos casos, j√° pr√©-decidido por vantagens acumuladas desde o ber√ßo. A ideologia da ‚Äúmeritocracia‚ÄĚ, que resulta desta cren√ßa ing√™nua, transforma constantemente privil√©gio social em ‚Äútalento individual‚ÄĚ […] O que distancia o Brasil das sociedades que admiramos n√£o √© a corrup√ß√£o do Estado, que √© um problema real em qualquer lugar. O que nos afasta das sociedades ‚Äúmoralmente superiores‚ÄĚ √© que exploramos, aceitamos e tornamos fato natural e cotidiano conviver com gente sem qualquer chance real de vida digna sem ter nenhuma culpa nisso […] Como diz Max Weber, a primeira necessidade das pessoas n√£o √© ver a verdade, mas, ao contr√°rio, ‚Äúlegitimar‚ÄĚ a vida que efetivamente levam como a melhor poss√≠vel.*¬†

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Dom Pedro I, apesar da diarreia que o fez descer do cavalo para defecar no mato, declarou a independência do Brasil (a cena foi bem diferente do quadro acima, pois o animal era uma mula, as roupas eram bem mais simples e imagine dom Pedro I agachado atrás de uma moita com dores de barriga).

Dom Pedro I dissolveu a Assembleia Constituinte e proclamou a Constitui√ß√£o de 1824 de acordo com seus interesses. Sete anos mais tarde, d√≠vidas e desaven√ßas for√ßaram Dom Pedro I a renunciar em favor de seu filho, de 5 anos, Dom Pedro II. Os liberais reinterpretaram um Ato de 1834 e imprimiram o que ficou conhecido como ‚Äėgolpe da maioridade‚Äô, para por o pr√≠ncipe menor de idade no poder.¬† A Constitui√ß√£o de 1824 afirmava que Dom Pedro II s√≥ poderia subir ao trono aos 18 anos de idade, portanto, ter assumido o poder em 1840, aos 14 anos, foi inconstitucional. O primeiro golpe pol√≠tico dado no Brasil e um dos deputados at√© admitiu que o golpe fosse lament√°vel, mas necess√°rio em casos extremos e outro achava que todo ato que satisfaz a vontade do povo √© legal. Qualquer semelhan√ßa com o Brasil contempor√Ęneo ser√° mera coincid√™ncia?!

O imperador Dom Pedro II governou por 5 d√©cadas e a instabilidade veio com a disputa pol√≠tica entre liberais e conservadores, al√©m da insatisfa√ß√£o dos militares, 18 meses depois da guerra do Paraguai (1864-1870), que, com a quest√£o militar, uniu os militares para o golpe acontecido dois anos depois. O positivista Benjamin Constant, l√≠der ideol√≥gico do golpe militar republicano, junto com o Marechal Deodoro da Fonseca ‚Äď devido ao ressentimento e revolta pela pen√ļria que o ex√©rcito vivia no per√≠odo monarquista ‚Äď fundaram o Clube Militar em 1887. Deodoro andava mais aborrecido ainda por ter perdido a disputa da amante ga√ļcha, Maria Adelaide, de seu arquirrival Silveira Martins, que fora nomeado para compor um novo minist√©rio monarca e virou presidente da Prov√≠ncia do Rio Grande do Sul, cargo que tinha sido de Deodoro antes de ser mandado para o esquecimento em Mato Grosso e, por isso, abandonou tal posto e voltou para o Rio de Janeiro sem dar grandes explica√ß√Ķes ao poder central (Deodoro era casado, portanto, foi o corno que dava corno! Tomou corno da amante e ainda perdeu o cargo que tinha e que foi ocupado pelo mesmo var√£o da cobi√ßada Maria Adelaide, seu arqui-inimigo de anos – a√≠ foi demais!). No 15 de novembro de 1889, Deodoro estava doente, mas levantou da cama para montar em seu cavalo e derrubar o Presidente do Conselho de Ministros, Visconde de Ouro Preto, e o regime monarca, por√©m, n√£o proclamou a rep√ļblica; s√≥ concordou com a troca do regime monarquista para o republicano horas depois do golpe do 15 de novembro de 1889, quando o avisaram que o arqui-inimigo Silveira Martins havia ganho minist√©rio pelo imperador. A Rep√ļblica foi proclamada na noite posterior por ele doente e deitado em sua cama. Enfim, a monarquia foi derrubada por um golpe militar chefiado por um militar monarquista (Deodoro) auxiliado por outro militar que detestava armas e fardas (Constant) e gostava mesmo de ser professor e estudar o positivismo comteano. Contradi√ß√Ķes que fazem do Brasil o Brasil!

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“Proclama√ß√£o da Rep√ļblica”, 1893, √≥leo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927). Acervo da Pinacoteca do Estado de S√£o Paulo.

Deodoro foi eleito presidente depois de um governo interino, presidido por ele mesmo. O candidato √† vice na outra chapa, Floriano Peixoto, teve mais votos que Deodoro como presidente. Em novembro de 1891, Deodoro, inconstitucionalmente (e incoerentemente, como sempre foram os militares na hist√≥ria do Brasil!), ¬†fechou o Congresso por estar indignado com uma lei que permitia o impeachment do presidente. A censura √† imprensa (‚Äúdecreto-rolha‚ÄĚ), a pol√≠tica econ√īmica catastr√≥fica do ministro Rui Barbosa, o estado de s√≠tio e o fechamento do Congresso fez Deodoro renunciar ap√≥s nove meses em exerc√≠cio, em favor de Floriano Peixoto. Um ensaio de ditadura estava iniciado e viria a se consolidar com o Marechal de Ferro Floriano Peixoto. Militarmente as coisas se repetir√£o no s√©culo que viria com outros golpes de Estado, um ajudado e o outro executado pelos homens de farda…

O governo de Floriano foi inconstitucional, pois a Constitui√ß√£o afirmava que se um governo terminasse antes da metade do mandato, novas elei√ß√Ķes deveriam ser convocadas. A oligarquia rural cafeeira chegou √† conclus√£o que os militares deveriam se afastar do poder e, ao final de 1894, Prudente de Morais, primeiro presidente civil, assumiu o poder para tocar a chamada ‚ÄúRep√ļblica dos Fazendeiros‚ÄĚ, idealizada por Prudente e consolidada pelo seu sucessor Campos Sales, para favorecer os feudos eleitorais √† medida em que o governo central sustentava a oligarquia dos Estados e exigia a reciprocidade (an√°logo ao fisiologismo da pol√≠tica atual!) ‚Äď isso instituiu a pol√≠tica do ‚Äúcaf√© com leite‚ÄĚ, na qual Minas e S√£o Paulo passaram a se alternar no poder (a oligarquia cafeeira e escravagista foi a que teceu o branqueamento e a concorr√™ncia desleal para pagar sal√°rios mais baixos aos imigrantes), e teve dura√ß√£o at√© a Revolu√ß√£o de 1930, quando Get√ļlio Vargas tomou o poder em um golpe, com a ajuda dos militares. Ap√≥s combates de quase um m√™s, os golpistas getulistas tomaram o poder com a deposi√ß√£o do presidente Washington Lu√≠s. A instaura√ß√£o do Estado Novo, em 1937, foi mais um golpe sobre dois outros, o da tomada do poder em 1930 e o da elei√ß√£o indireta de 1934. Resumindo, o golpe do golpe ao golpe de mais ditadura. Nesse aspecto golpista ningu√©m supera Get√ļlio! Ningu√©m anda falando mal dele, pois seu populismo era de conte√ļdo e qualidade na dire√ß√£o do trabalhador, bem diferente do populismo rasteiro e raso de conte√ļdo que assistimos nesse s√©culo XXI.

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Get√ļlio Vargas foi deposto em outubro de 1945 e quem ajudou a fazer isso foi o Marechal Eurico Gaspar Dutra, que aderiu √† Revolu√ß√£o de 1930, apoiou o golpe do Estado Novo de 1937 e foi ministro de Vargas durante 9 anos. O pr√™mio da trai√ß√£o foi Dutra virar presidente de 1946 √† 1950 (qualquer semelhan√ßa com o pa√≠s contempor√Ęneo √© s√≥ mera coincid√™ncia). A verdade √© que, na hist√≥ria do Brasil, o que muito temos s√£o in√ļmeros traidores, como ratos que pulam do barco quando percebem a emin√™ncia de afundar. O jornalista Carlos Lacerda n√£o era do PMDB do s√©culo XXI (analogias √† parte, pois na verdade nem existia PMDB!), mas √© um desses canalhas: apoiou o comunista Carlos Prestes e depois mudou de lado; virou um feroz opositor do governo Vargas em seu jornal e teve o apoio da Rede Globo de Roberto Marinho; este √ļltimo o fez para alcan√ßar palanque na m√≠dia nacional (Marinho e sua Globo tamb√©m apoiaria o golpe militar de 1964). Get√ļlio voltou ao poder, em 1950, com o movimento queremista (queremos Get√ļlio) e os getulistas sabiam que tinham que dar um jeito no feroz oposicionista Carlos Lacerda. O fiel servidor de Get√ļlio, Greg√≥rio Fortunato, tomou pra si a a√ß√£o desastrada que tramou a tentativa de assassinato de Lacerda. A terr√≠vel falha no tiro, que s√≥ acertou o p√© de Lacerda, levou ao suic√≠dio de Vargas e adiou o golpe militar que aconteceria dez anos depois.

Uma tentativa de golpe pela UDN e apoiada por Lacerda n√£o conseguiu impedir JK de assumir. Curiosamente, o presidente eleito em 1955, Juscelino Kubitschek, tomou posse pela garantia do general Henrique Lott, pois havia uma conspira√ß√£o para ele n√£o assumir o posto a que tinha sido eleito. No pleito futuro, J√Ęnio blefou ao renunciar e o tiro saiu pela culatra, pois o povo n√£o saiu √†s ruas para pedir sua volta como ele previa, muito pelo contr√°rio, a massa popular aceitou sua ren√ļncia pacificamente e o vice Jango, desafeto dos militares que o achavam comunista assumiu, tentando fazer suas ‚Äėreformas de base‚Äô. Veio o 31 de mar√ßo de 1964 e passamos √† ‚Äúmoderniza√ß√£o conservadora‚ÄĚ (ao crescimento do PIB, tudo; ao povo, arrocho salarial e mais nada!) depois de um golpe civil-militar, que, desde o dia da mentira, naquele 1 de abril de 1964, fez o Brasil amargar 21 anos da sua hist√≥ria mais nefasta, que s√≥ se findaria em 1985. Carlos Lacerda foi um dos conspiradores civis de grande import√Ęncia no apoio ao golpe, assim como a Marcha da Fam√≠lia com Deus pela Liberdade, que fez a classe m√©dia da √©poca marchar contra Jango e suas reformas sociais pelo medo de perder privil√©gios em prol dos mais desabastados (agora a classe m√©dia sempre e majoritariamente pobre de conte√ļdo e que pensa ser a elite. Enfim, j√° escrevi antes que qualquer semelhan√ßa com o Brasil atual √© s√≥ mera coincid√™ncia!).

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Carlos Lacerda. Fonte: O Globo.

Os tempos mais recentes da chamada ‚ÄúNova Rep√ļblica‚ÄĚ, j√° andei escrevendo nos √ļltimos tempos e por isso esse escrito finaliza aqui. Quem sabe continuarei em outro momento sobre… A redemocratiza√ß√£o com Sarney (o homem que apoiava os militares, mas por raiva do candidato dos milicos ter sido seu inimigo Maluf, voltou-se √† democracia por puro interesse pessoal pol√≠tico) e a cat√°strofe financeira de seu governo em crise, hiperinfla√ß√£o, morat√≥ria e alto desemprego; Collor e o pior governo desse per√≠odo contempor√Ęneo que surgiu como ‚ÄúNova Rep√ļblica‚ÄĚ; Itamar Franco, vice de Collor depois do impeachment e o importante lan√ßamento do Plano Real; FHC em seu primeiro mandato da consolida√ß√£o do Plano Real, pois seu segundo mandato foi um desastre; A era do PT de Lula e Dilma, √† qual o primeiro mandato de Lula foi necess√°rio e os outros, tornaram-se not√≥rios que com o aparelhamento de Estado pela extrema corrup√ß√£o s√≥ seriam necess√°rios a partir da altern√Ęncia de poder requerida em uma democracia e suas devidas e urgentes reformas.

Enfim, o desdobramento foi uma presidente afastada por impeachment em 31 de agosto de 2016 e o vice assumindo como presidente efetivo. O imbr√≥glio foi t√£o grande que se golpe ou n√£o, a nomenclatura pouco importa, pois os (√ļnicos?!) dois caminhos, defendidos por muitos, foram mais ideol√≥gicos do que dentro de uma razoabilidade como projeto de longo prazo e pensado por estadista – o resultado foi catastr√≥fico, sin√īnimo de bolsonarismo. Resumo-lhes.

Caos: em 2019, Bolsonaro. Lembra da classe média da família com Deus pela liberdade? Da lógica do nada está tão ruim que não possa ficar pior? Sim, estamos vivendo a era da irrazoabilidade, de momentos em que os parvos estão em vantagem e predominando porque são muitos. Em suma, por causa desse quantitativo de atoleimados chancelando sandices, as consequências certamente podem ser (e serão!) irreversíveis. 

Pensou em ressuscitar Dom Pedro II, Get√ļlio ou JK?! Digo-lhe que com esse material humano do parlamento brasileiro atual, n√£o adiantaria nem ressuscitar o maior l√≠der do s√©culo XX. Sim, nem Nelson Mandela resolveria. Se leu at√© aqui anote para n√£o esquecer: at√© agora voc√™, povo brasileiro, n√£o √© e nem nunca foi o protagonista.¬†¬†

Dados do Brasil em 2020

O Brasil em 2020

Por David Cohen em Revista √Čpoca, 25 de maio de 2009, p. 50-53.

Ser√°, √© claro, um Brasil diferente sob v√°rios aspectos. A maior parte deles, imprevis√≠vel. Uma d√©cada √© um per√≠odo longo o suficiente para derrubar certezas absolutas (ningu√©m prediz uma Revolu√ß√£o Francesa, uma queda do Muro de Berlim ou um ataque √†s torres g√™meas de Nova York). Mas √© tamb√©m um per√≠odo de matura√ß√£o dos grandes fen√īmenos incipientes ‚Äď dez anos antes da populariza√ß√£o da internet j√° era poss√≠vel imaginar como ela mudaria o mundo. Da mesma forma, fen√īmenos detect√°veis hoje ter√£o seus efeitos mais fortes a partir de 2020.

Taxa de fecundidade Brasil

O primeiro deles ser√° a mudan√ßa populacional brasileira. Nos anos 1960 e 1970, os estudiosos se preocupavam com a ‚Äúbomba demogr√°fica‚ÄĚ: as alt√≠ssimas taxas de natalidade, de seis filhos por mulher, criavam uma press√£o social que atrasava o progresso do pa√≠s pela exig√™ncia de investimentos pesados em cuidados com a inf√Ęncia. Esse problema sumiu, quase por encanto (veja figura sobre fecundidade brasileira). A urbaniza√ß√£o, a entrada das mulheres no mercado de trabalho e os novos m√©todos anticoncepcionais fizeram a taxa de natalidade declinar, at√© o atual √≠ndice de 1,8 filho por mulher. A mudan√ßa do perfil demogr√°fico d√° uma janela de oportunidade ao Brasil. Pela primeira vez, teremos mais gente no mercado de trabalho que fora dele. Mais trabalhadores que dependentes. Mais produtores que consumidores de riqueza. A janela se fechar√° a partir da d√©cada seguinte, com o aumento do n√ļmero de idosos. Esta d√©cada √©, portanto, aquela em que temos as melhores condi√ß√Ķes para resolver os problemas estruturais do pa√≠s (o que o Brasil precisa fazer para crescer mais e melhor). √Č uma tarefa herc√ļlea. Mas, como disse o presidente Luiz In√°cio Lula da Silva: ‚ÄúSe cada presidente deixar um conjunto de obras estruturantes para o sucessor, o pa√≠s dar√° um salto de qualidade nos pr√≥ximos 20 anos‚ÄĚ.

popuaçao brasileira em 2020

Ainda sobre a popula√ß√£o idosa, conforme a reportagem da Revista Veja (2008), a cada ano, cresce o n√ļmero de aposentados no pa√≠s. J√° a quantidade de pessoas na ativa, contribuindo para o INSS (o sistema previdenci√°rio oficial dos trabalhadores da iniciativa privada), n√£o avan√ßa na mesma velocidade. Com base na atual taxa de fecundidade das brasileiras, de 1,8 filho por mulher, o economista Marcelo Caetano, do Instituto de Pesquisa Econ√īmica Aplicada (Ipea), estimou que, se o ritmo se mantiver est√°vel nos pr√≥ximos anos, j√° em 2032 haver√° mais gente recebendo aposentadoria do que contribuintes sustentando o INSS (veja figura que segue).

gr√°fico de aposentadoria

Se n√£o houver ajuste no sistema, o rombo nas contas da Previd√™ncia assumir√° propor√ß√Ķes explosivas. Atualmente, o d√©ficit entre receitas e despesas √© da ordem de 2% do produto interno bruto (PIB) ‚Äď ou 50 bilh√Ķes de reais ao ano. Pelas proje√ß√Ķes de Caetano, sem reformas, o buraco dever√° quadruplicar e superar 8% do PIB dentro de quatro d√©cadas. Diz o pesquisador: “A press√£o sobre os gastos √© √≥bvia. Por isso, em todo o mundo os pa√≠ses correm para reformar seu sistema antes que o desequil√≠brio saia do controle” (VEJA, edi√ß√£o 2071, 30 de julho de 2008).

As mudan√ßas populacionais incluem certa redistribui√ß√£o regional. O Sul e o Sudeste j√° deixaram de atrair gente do pa√≠s inteiro (veja setas migrat√≥rias na figura que segue), e as cidades m√©dias (de 100 mil a 500 mil habitantes) v√™m crescendo a taxas maiores que as grandes. √Č poss√≠vel, ainda, que o maior pa√≠s cat√≥lico do mundo tenha maioria protestante.

Migra√ß√Ķes internas no s√©c XXI

Do ponto de vista econ√īmico, o Brasil tamb√©m est√° bem situado. N√£o √† toa somos considerados o mais bem arrumado entre os pa√≠ses do grupo Bric, √† frente de China, √ćndia e R√ļssia. Espera-se que os Brics ganhem peso econ√īmico em 2020 e respondam pela maior parte da economia mundial em 2050. J√° na pr√≥xima d√©cada o PIB brasileiro (soma de todas as riquezas produzidas pelo pa√≠s) dever√° pular para US$ 2,6 trilh√Ķes, segundo previs√£o do banco de investimentos Goldman Sachs (veja figura que segue). √Č quase o dobro do atual. A participa√ß√£o do Brasil no PIB mundial passar√° de 2,5% para 4%. Teremos ultrapassado a It√°lia. A riqueza extra deve melhorar a vida dos brasileiros, mas ela sozinha n√£o garantir√° um padr√£o de vida de pa√≠s desenvolvido. Como diz o economista Paulo Guedes, n√£o queremos o pesadelo de um PIB gigantesco com uma popula√ß√£o miser√°vel. Queremos a ‚Äúforma√ß√£o de uma enorme classe m√©dia, criando extraordin√°rio mercado de consumo de massa pela cont√≠nua eleva√ß√£o da renda per capita‚ÄĚ. Para chegarmos a isso, √© preciso resolver os gargalos da economia (uma s√≠ntese de nossos desafios) e prevenir as amea√ßas futuras, como o rombo da Previd√™ncia Social. ‚ÄúO Brasil era o pa√≠s do futuro. N√£o √© mais. O futuro j√° est√° aqui. Nosso problema n√£o √© mais de subdesenvolvimento, √© de injusti√ßa‚ÄĚ, diz o soci√≥logo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

tamanho da economia brasileira

Tamb√©m no campo econ√īmico vivemos uma janela de oportunidade. Hoje, o Brasil¬†√© uma pot√™ncia do agroneg√≥cio e das commodities gra√ßas aos recursos naturais e √† m√£o de obra relativamente barata. A partir de 2020, √© poss√≠vel que a √Āfrica re√ļna essas condi√ß√Ķes. Precisamos estar mais bem preparados para competir em outro n√≠vel: da produ√ß√£o de conhecimento. ‚ÄúO Brasil precisa buscar um novo patamar de gera√ß√£o de riqueza atrav√©s da inova√ß√£o tecnol√≥gica‚ÄĚ, diz James Wright, diretor do Programa de Estudos do Futuro (Profuturo), da Universidade de S√£o Paulo. Precisamos de mais cientistas e t√©cnicos. Precisamos, sobretudo, investir em educa√ß√£o. Teremos, nesta d√©cada, menos crian√ßas entrando na idade escolar. Em 2020, haver√° entre 10 milh√Ķes e 13 milh√Ķes de matr√≠culas a menos no ensino fundamental. Os recursos hoje gastos com esse contingente podem ser aplicados em tecnologia, aumento da carga hor√°ria e treinamento de professores. Ainda ser√° pouco. Para dar o salto de que o Brasil precisa, √© necess√°rio reservar para a educa√ß√£o no m√≠nimo 5% do PIB ‚Äď hoje gastamos apenas 3,7%.

Al√©m de crescer mais, precisamos decidir crescer de forma mais sustent√°vel. O Brasil come√ßar√° a sentir, a partir de 2020, os efeitos do aquecimento global. As amea√ßas v√£o da desertifica√ß√£o de grandes √°reas ao aparecimento de mais ciclones e furac√Ķes. O futuro exigir√° de n√≥s um esfor√ßo de adapta√ß√£o. N√£o apenas ao clima, mas √†s mudan√ßas sociais que despontam. Haver√° empregos dferentes, e muitos de n√≥s precisar√£o trabalhar at√© idades mais avan√ßadas. Teremos carros melhores e menos poluentes, mas o tr√Ęnsito n√£o vai melhorar. Teremos uma redu√ß√£o dos n√≠veis de viol√™ncia, principalmente porque haver√° menos jovens na idade mais prop√≠cia ao crime, mas essa tend√™ncia oscilar√° e s√≥ se confirmar√° totalmente a partir dos anos 2030. Viveremos mais (veja quadro que segue), e gastaremo mais com sa√ļde. Os casamentos ocorrer√£o mais tarde, as fam√≠lias ser√£o menores e haver√° 5 milh√Ķes de mulheres a mais que homens. Usaremos tecnologia de ponta, compraremos prdutos maravilhosos, cultivaremos fama e consumiremos cultura de outras formas. Mas continuaremos sendo brasileiros no que isso tem de mais essencial. E, ap√≥s sediar a Copa do Mundo de 2014, estaremos nos preparando para o oitavo ou nono t√≠tulo de campe√Ķes mundiais ‚Äď tr√™s ou quatro √† frente da It√°lia.

quanto tempo viveremos

Fonte:¬† Revista √Čpoca, 25 de maio de 2009, p. 53.